Robôs já não ameaçam empregos

Estudioso diz que a ‘falta de bom senso das máquinas’ vai garantir que os computadores não substituam os humanos em todas as funções

Neil Irwin, THE NEW YORK TIMES

30 de agosto de 2014 | 19h00

É fácil olhar para os fantásticos avanços nos campos da robótica e da tecnologia da informação nos últimos cem anos e temer pelo futuro do trabalhador americano. Do chão da fábrica ao caixa do armazém, inúmeras funções outrora realizadas por humanos agora foram transferidas para os computadores. Tecnologias incipientes, como os carros sem motorista, prometem que mais empregos serão perdidos para o computador na próxima geração. 

Mas David Autor, respeitado estudioso dos mercados de trabalho no Massachusetts Institute of Technology (MIT), tem uma visão mais positiva da situação. Num estudo apresentado na reunião anual de dirigentes de bancos centrais em Jackson Hole, Wyoming, na semana passada, Autor afirma que mesmo que os computadores tenham um bom desempenho em tarefas repetitivas, seu progresso foi muito menor no uso do senso comum.

Tentar ensinar um computador que a imagem de uma cadeira é uma cadeira, por exemplo, vai desconcertá-lo. “Um vaso sanitário e um cone de trânsito se assemelha de algum modo a uma cadeira”, escreve Autor, “mas um pouco de raciocínio sobre sua forma em relação à anatomia humana sugere que o cone de sinalização não será um assento confortável. Isso exige fazer uma ponderação quanto à utilidade do objeto e, não simplesmente a que ele se assemelha, “habilidade que os computadores no geral não possuem”. 

O aprendizado de máquinas, como o Google Translate ou as recomendações de filmes do Netflix, é muito inconsistente, ele afirma, “às vezes é incrivelmente preciso, às vezes é normalmente regular e ocasionalmente ininteligível”. Mas o que isso significa para os trabalhadores nos próximos anos? 

David Autor afirma que esta deficiência abre muitas oportunidades para os humanos servirem como intermediários entre computadores cada vez mais inteligentes que, entretanto, não possuem este senso comum.

Autor recorre à ideia do “Paradoxo de Polanyi”, que leva o nome do pensador húngaro Michael Polanyi, segundo o qual “sabemos mais do que podemos distinguir”, sugerindo que os humanos podem fazer coisas imensamente complicadas, como dirigir um carro ou distinguir uma espécie de pássaro de outra sem compreender plenamente os detalhes técnicos. 

“Seguindo a observação de Polanyi, as tarefas que parecem ser mais difíceis para os robôs são aquelas que exigem flexibilidade, julgamento e senso comum - capacidades que compreendemos tacitamente”. Então o que isso significa para os empregos no futuro, mesmo com os aperfeiçoamentos cada vez maiores da tecnologia para a realização de muitas coisas que hoje cabem aos humanos?

Vantagem humana. “Muitos dos empregos que exigem uma aptidão média e persistirão no futuro combinarão tarefas técnicas rotineiras com um conjunto de funções que não são de rotina, em que os trabalhadores estarão comparativamente em posição de vantagem: interação interpessoal, flexibilidade, adaptabilidade e resolução de problemas”, escreve David Autor. Ele cita especificamente tarefas de apoio médico, no setor de construção e algumas funções administrativas que exigem tomada de decisão em vez de apenas digitar e arquivar.

No documento, Autor apresenta dados mostrando que tais empregos que exigem capacidade mediana de fato têm sido pressionados nas últimas décadas, com um crescimento muito mais vigoroso no número de empregos onde o salário é baixo e no campo dos profissionais qualificados. Na verdade, é um esvaziamento da força de trabalho americana, com menos postos de trabalho para técnicos e trabalhadores de fábricas e salários baixos que decorrem disto.

Mas embora reconhecendo essa tendência no passado, Autor afirma que não há razão para se acreditar que isto continuará no futuro.

“Acho que uma camada significativa de empregos que exigem uma capacidade média, não requer faculdade, combinando habilidades vocacionais específicas com habilidades medianas básicas - como alfabetização, aritmética, adaptabilidade, solução de problemas e senso comum - persistirá nas próximas décadas”. Ele afirma que é difícil responsabilizar o advento da computação pelo desaparecimento de postos de trabalho na última década, quando grande parte da mudança se verificou depois do investimento de capital em tecnologia da informação após o estouro da bolha das ponto.com.

O que sustenta o otimismo de Autor é o fato de a humanidade ter temido muito que a tecnologia usurpasse os empregos e ter errado consistentemente. Segundo ele, na aurora do século 20, 41% da mão de obra americana estava empregada na agricultura, porcentagem que caiu para 2% em 2000. Os agricultores daquela era não imaginavam que tão poucos dos seus descendentes se dedicariam à agricultura ou que tantos trabalhariam nos setores médico, financeiro, eletrônica, lazer, entretenimento e assim por diante.

“Podemos encontrar novos exemplos, diariamente, em que a tecnologia substitui a mão de obra humana num conjunto - embora circunscrito, de tarefas. As complementaridades são sempre mais difíceis de identificar”, afirma Autor.

Em outras palavras, é muito mais fácil ver os empregos que estão em risco em decorrência de tecnologias emergentes do que as oportunidades de novos empregos que serão gerados por essas tecnologias. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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