Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Por que Lula ainda precisa conquistar indecisos, mesmo estando em alta nas pesquisas?

Tudo indica que milhões de eleitores que já declaram voto em Lula não seriam capazes, por si sós, de assegurar a vitória; é preciso conquistar votos de quem ainda está refletindo sobre qual candidato lhe desperta menos aversão

Rogério Werneck*, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 04h00

Tenho arguido aqui que, para conquistar o eleitorado de centro, Lula teria de se mover para o centro, no eixo que verdadeiramente importa, que é o da condução da política econômica. Mas houve quem discordasse, com uma indagação que faz sentido: por que razão Lula faria isso, quando já há pesquisas sugerindo que ele poderia ser eleito no primeiro turno?

Posso tentar ser mais claro. De forma ultraesquemática, podemos classificar os eleitores de Lula em três tipos. Há uma massa gigantesca deles formada pelo sólido eleitorado petista que jamais negou voto a candidatos do partido à Presidência. Chamemos tais eleitores de tipo 1. Mas, na eleição deste ano, Lula também contará com um contingente considerável de eleitores do tipo 2. Não petistas que nutrem tamanha aversão a Bolsonaro que estão dispostos a votar em Lula de olhos fechados para evitar, a qualquer custo, o “pesadelo da reeleição”.

O problema é que tudo indica que as dezenas de milhões de eleitores desses dois tipos não seriam capazes, por si sós, de assegurar a vitória de Lula. Para ser eleito, é preciso conquistar votos de eleitores do tipo 3. Gente que também tem aversão por Bolsonaro, mas não acha nenhuma graça em Lula. E que, até as eleições, estará imersa em reflexões sobre qual candidato lhe desperta menos aversão.

Só Deus sabe por que eleitores do tipo 3 não acham graça em Lula. Mas não lhes faltam razões. Podem, por exemplo, ter ficado chocados com o alastramento da corrupção nos governos petistas e com as proporções do petrolão. Ou podem não ter se esquecido nem do colossal descarrilamento da economia provocado pelo último governo petista, nem de ter sido de Lula, e só dele, a ideia de alçar Dilma Rousseff à Presidência da República.

Não obstante o que agora sinalizam as pesquisas, ainda faltam mais de três meses e meio para o primeiro turno. E Lula bem sabe que, com a selvagem campanha eleitoral que vem por aí, esse seu vasto telhado de vidro pode vir a ser avariado.

Tendo em vista sua longa e inarredável postura negacionista sobre a corrupção nos governos petistas, é difícil imaginar o que o candidato ainda poderia alegar, a esta altura, sobre o petrolão e escândalos afins. O que lhe resta, caso ainda pretenda quebrar a resistência de eleitores do tipo 3, é tentar mudar seu discurso para convencê-los de que a política econômica que adotaria nada teria a ver com o alarmante voluntarismo inconsequente que continua a fascinar o PT. Não é o que Lula tem feito.  

*ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO 

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