André Borges/ AFP
André Borges/ AFP

Lula se irrita com qualquer menção às restrições fiscais que teria de enfrentar

Caso ex-presidente seja eleito, ele terá de administrar uma saída ordenada do enredado entalo fiscal em que está metido o País, para conseguir, aos poucos, abrir espaço no Orçamento e atender a programas de política pública a desassistidos

Rogério Werneck*, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 04h00

Em entrevista a uma emissora de rádio, na semana passada, Lula externou com todas as letras quão irritado já está com o pouco que tem ouvido em seus parcos contatos com representantes de instituições financeiras. Em meio a uma torrente de diatribes demagógicas, declarou que “essa gente só fala de teto de gasto e política fiscal”. “Eles não falam em política social, em distribuição de renda e distribuição de riqueza.” (Folha, 2/7)

A irritação deixa claro que Lula ainda não entendeu – ou finge não entender – a real natureza do problema central que terá de enfrentar caso seja eleito presidente: administrar uma saída ordenada do enredado entalo fiscal em que está metido o País, para conseguir, aos poucos, abrir espaço no Orçamento para atender a programas de política pública a desassistidos.

Ao tentar passar ao largo dessa questão, Lula pode até conseguir enganar a grande massa de eleitores menos informados. Mas não pode reclamar da péssima impressão que essa esperteza populista vem causando em segmentos mais informados do eleitorado.

É inevitável que promessas de ampliação do gasto público, na campanha presidencial, tendam a ser tratadas com descrédito por eleitores mais informados, a menos que venham respaldadas por argumentos minimamente convincentes de como o candidato pretende lidar com as restrições fiscais relevantes, para que o prometido possa ser cumprido. Sem tal respaldo, quanto mais ousadas as promessas, mais descrédito tendem a merecer.

Deixar de lado a questão da sustentabilidade fiscal, como se o problema não existisse, pode ser um caminho imbatível para a vitória na eleição presidencial, desde que o candidato não se importe com a exacerbação de expectativas desestabilizadoras com que terá de lidar em 2023.

Lula e o PT continuam convencidos de que não precisam anunciar nem mesmo um esboço de plano de jogo razoável que, supostamente, permitiria a um governo petista manter as contas públicas sob controle a partir do ano que vem. Já deixaram mais do que claro que não pretendem preservar o teto de gastos. Mas se recusam a delinear que esquema alternativo de controle da expansão do dispêndio público seria adotado, em substituição ao teto de gastos.

Não se trata de resistência a tornar público um plano de jogo já existente. A verdade verdadeira é que tal plano ainda está longe de ter sido sequer esboçado. Uma inconsequência especialmente alarmante, tendo em vista a irresponsabilidade fiscal delirante que hoje domina o Congresso. Com sólido apoio do PT. 

* ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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