Rolls-Royce afirma que Brasil é prioridade

O faturamento da Rolls-Royce no Brasil que em 2001 foi de US$ 700 milhões deve cair neste ano para cerca de US$ 500 milhões. Os ataques terroristas de 11 de setembro aos EUA tiveram um impacto muito negativo sobre a aviação comercial em todo o mundo, causando a desaceleração no ritmo de entregas de aeronaves da Embraer equipadas com as turbinas fabricadas pelo grupo britânico.Apesar disso, o presidente mundial da Rolls-Royce, Sir Ralph Robins, em entrevista exclusiva à Agência Estado, disse que o Brasil continua sendo um dos mercados prioritários para a empresa e que as perspectivas de negócios a longo prazo, inclusive nas áreas de energia, marítima e de defesa, são "excepcionais".Robins, juntamente com o presidente da Embraer, Maurício Botelho, será homenageado no dia 15 de março com o prêmio Personalidade do Ano, concedido pela Câmara Brasileira de Comércio na Grã-Bretanha.Ao visitar o Brasil no ano passado, integrando a comitiva do primeiro-ministro Tony Blair, o principal executivo da Rolls-Royce havia demonstrado um grande otimismo, calculando que até 2004 o faturamento anual da empresa no País poderia atingir US$ 1 bilhão."Esperávamos faturar novamente cerca de US$ 700 milhões ou mais no Brasil em 2002, mas suspeito que agora obteremos apenas US$ 500 milhões. Mas ainda é uma quantia muito significativa", avaliou.EmbraerA parceria com a Embraer e a unidade de recondicionamento de turbinas em São Paulo, com cerca de 400 empregados, são as atividades prioritárias da Rolls-Royce no Brasil. "A nossa parceria com a Embraer, que hoje é a terceira maior construtora de aviões do mundo, e a unidade de recondicionamento continuarão sendo por um bom tempo os nossos principais negócios no País", disse. "Mas há outras oportunidades crescentes, no setor de energia, marítimo e defesa."Robins acredita que, nos próximos cinco anos, a Rolls-Royce poderá vender no Brasil cerca de 50 navios UTT 755, usados no abastecimento e apoio de plataformas petrolíferas off-shore. Segundo ele, já há encomendas para dez embarcações - cinco serão construídas em estaleiros brasileiros."O setor de petróleo e gás no Brasil vem crescendo rapidamente e nós também crescemos com isso. Estamos muito interessados, por exemplo, no gás que vem da Bolívia."RacionamentoO presidente da Rolls-Royce acredita que o fim do racionamento energético, poderá, a curto prazo, desacelerar o ritmo de construção de usinas termelétricas no País, afetando também momentaneamente as vendas de equipamentos. "Pode ser que ocorra uma tendência das pessoas esquecerem o problema, mas a longo prazo o potencial para esse setor é enorme."Por isso, segundo ele, a Rolls-Royce mantém o plano de investir cerca de US$ 100 milhões nos próximos dois anos em negócios de energia no País. "Nosso ritmo de investimentos vai também acompanhar o ritmo da economia brasileira." Segundo Robins, a crise energética revelou o alto grau de dependência do país na geração hidrelétrica."Não há outro país que seja tão dependente de recursos hídricos e isso precisa mudar", disse. "Já faz um bom tempo que não ocorre uma seca, mas todos nós estamos cientes das mudanças climáticas que estão ocorrendo, o que pode parecer seguro hoje, pode não ser amanhã, agora mesmo estão falando que o El Niño vai ressurgir neste ano."Robbins disse que, em recentes contatos com autoridades brasilerias, ficou com a impressão de que, "apesar de eles obviamente estarem felizes com as chuvas, reconhecem que o grau de dependência das usinas hidrelétricas é demasiado."Entre os obstáculos enfrentandos pelas empresas estrangeiras interessadas em investir no setor energético brasileiro, ele cita a regulamentação em vigor. "É difícil, as regulamentações nos locais onde pretendemos construir usinas é complicada, o que atrasa bastante o processo", afirmou. "Mas não podemos fazer nada, temos de lidar com o problema e esperar que as regras se tornem mais claras e objetivas."MilitaresRobins também aponta o setor militar no Brasil como uma área que poderá trazer dividendos para a Rolls-Royce. Segundo ele, os motores da marca equipam quase a metade de todas aeronaves militares do País. "Temos um grande interesse na Marinha e Aeronáutica, há muitas oportunidades. Estamos buscando novos projetos, talvez no fornecimento de helicópteros com três motores, no aperfeiçoamento das turbinas do AMX ou mesmo na fabricação de novas turbinas."O executivo da Rolls-Royce acredita que a parceria com a Embraer poderá render bons frutos no mercado asiático. "Temos uma forte presença na Ásia, inclusive na China com uma fábrica de peças, e vemos um grande potencial na região para a Embraer e estamos dispostos a ajudá-la a conquistar esse mercado", disse."A China, com aquela enorme população, várias grandes cidades e onde o conceito de aviação regional apenas começou a se fortalecer é um potencial enorme", afirmou.O presidente da Rolls-Royce disse estar "razoavelmente otimista" com as perspectivas da economia brasileira para este ano. "É difícil fazer previsões para a economia brasileira pois nossa experiência mostra que as coisas mudam muito rápido, mas o País não foi afetado pela crise argentina e desde que isso continue acho que será um ano positivo", completou Robins.EleiçõesEle evitou comentar as candidaturas para a sucessão presidencial brasileira. Mas salientou que "a administração atual teve uma boa performance" e que gostaria "que atual linha de conduta econômica do País fosse mantida".Ele acredita que o próximo presidente da República, quem quer que seja, precisará continuar expandindo a economia e atraindo investimentos. "O potencial para a economia brasileira é tamanho que todos os partidos políticos têm de seguir essa rota." Na quinta-feira, a Rolls-Royce irá divulgar os resultados globais para 2001. Segundo analistas da City, os números deverão ser negativos, pois o grupo foi muito afetado pela crise na aviação comercial desde setembro de 2001. Robins não quis comentar os resultados, mas disse disse que a recuperação na aviação comercial do mundo será lenta."O número de passageiros está crescendo rapidamente, pois as pessoas estão perdendo o medo de voar", disse. "Mas as empresas aéreas estão oferecendo muitos descontos, tiveram suas margens reduzidas e não estão fazendo muito dinheiro."Segundo ele, as vendas de novas turbinas da Rolls-Royce em 2002 serão inferiores às do ano passado, mas as atividades setor de peças e serviços estão crescendo de uma maneira sustentável. "Desde que não tenhamos novas surpresas como a do ano passado, algo que é impossível de se prever, a recuperação poderá ganhar ritmo ao longo deste ano", avaliou.

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