Rombo nas contas com exterior vai a US$ 14 bi

Recorde negativo no trimestre foi causado pela remessa de lucros e gastos de turistas

Renato Andrade e Fabio Graner / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2011 | 00h00

A disparada na remessa de lucros e o forte aumento das despesas de turistas brasileiros provocaram mais um rombo recorde nas contas externas do País em março. O saldo das transações comerciais e financeiras com o resto do mundo ficou negativo em US$ 5,7 bilhões, o maior déficit para meses de março desde 1947, início da série do Banco Central.

Apesar disso, o BC se diz tranquilo com a situação porque a entrada de investimentos estrangeiros tem sido mais do que suficiente para cobrir o buraco. De acordo com dados divulgados ontem, os estrangeiros investiram diretamente em empresas brasileiras US$ 6,8 bilhões no mês passado, garantindo uma folga de quase 20% em relação ao déficit das contas externas.

O resultado do trimestre também é recorde. Enquanto o saldo das transações correntes ficou negativo em US$ 14,6 bilhões, os chamados investimentos estrangeiros diretos atingiram a marcar de US$ 17,5 bilhões.

"As contas externas do País, tanto em março, quanto no primeiro trimestre, vieram em linha com aquilo que a gente estava esperando, ou seja, uma ampliação do déficit em transações correntes que, em última instância, reflete o crescimento da economia brasileira", afirmou Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC. "Ao mesmo tempo, tivemos uma elevação dos recursos na conta financeira, que permitirá o financiamento em condições favoráveis deste déficit crescente."

Um dos fatores que contribuíram para o aumento do buraco nas contas externas foi o comportamento das chamadas remessas de lucros e dividendos. Filiais de empresas internacionais repassaram para suas matrizes US$ 3,7 bilhões no mês passado, um aumento de 83% em relação ao que havia sido enviado no mesmo período do ano passado. No trimestre, as remessas somaram U$ 8,4 bilhões, bem acima dos US$ 4,5 bilhões no primeiro trimestre de 2010.

Segundo Maciel, essas empresas têm aproveitado o bom desempenho da economia brasileira para ampliar lucros e garantir uma remessa gorda de recursos às matrizes. "Essa é uma tendência. Tivemos uma conjuntura favorável ao longo do ano de 2010, com crescimento expressivo, e isso se reflete no envio de lucros e dividendos."

Turismo. O dólar barato e a melhora na renda também fizeram com que mais brasileiros embarcassem para o exterior, aumentando ainda mais o déficit na conta de viagens internacionais.

Somente em março, o dinheiro deixado lá fora por turistas brasileiros superou em pouco mais de US$ 1 bilhão o que foi gasto por estrangeiros em viagens pelo Brasil. O resultado representa um aumento de 87,15% em relação a março do ano passado. De janeiro a março, os brasileiros gastaram US$ 4,7 bilhões em viagens no exterior, enquanto os estrangeiros deixaram por aqui US$ 1,8 bilhão.

Pelos cálculos do BC, o Brasil deve encerrar o ano com um déficit de US$ 60 bilhões na conta corrente. Este saldo deve ser praticamente todo financiado com a entrada de investimentos estrangeiros diretos, estimados em US$ 55 bilhões pelo BC.

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