Roubini alerta para ''duplo mergulho''

Em artigo, economista aponta risco de que, depois de ligeira melhora, economia volte a mergulhar em uma crise

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

O economista Nouriel Roubini, um dos primeiros a prever a crise financeira, acredita que o risco de recaída da economia mundial está crescendo. "A recuperação provavelmente será anêmica e há um grande risco de termos uma recessão ?duplo mergulho?", afirma Roubini em artigo no Financial Times de domingo. Para ele, aumentaram as chances de um "duplo mergulho", ou recessão em W - ou seja, depois de uma ligeira melhora, a economia voltaria a mergulhar em uma crise.Roubini cita Brasil, Austrália, Alemanha, França, Japão, China e Índia como países onde a recuperação já começou. Mas ele acha que a recuperação será "anêmica por pelo menos dois anos". Para o economista, o mundo vive apenas dois trimestres de rápido crescimento movido pela reposição de estoques e recuperação de produção."O nível de emprego ainda está caindo rapidamente nos EUA e outros lugares, e isso é má notícia para demanda, resultados de bancos, e também para a qualificação dos trabalhadores, um fator essencial para o crescimento da produtividade a longo prazo", diz Roubini.O economista acredita que esta é uma crise de solvência, e não apenas de liquidez. Segundo ele, "o processo de desendividamento ainda não começou, porque os prejuízos nas instituições financeiras foram socializados e transferidos para o balanço dos governos". "Isso restringe a capacidade dos bancos de emprestar, dos lares de gastar e das empresas de investir." Além disso, nos países com déficit em conta corrente, como os EUA, os consumidores precisam cortar os gastos e poupar muito mais - mas esses mesmos consumidores estão endividados e sofreram perdas com a queda nos preços dos imóveis.O sistema financeiro, apesar da injeção de recursos, continua muito danificado, diz Roubini. "A maioria do sistema financeiro não bancário desapareceu, os bancos tradicionais esperam prejuízo de trilhões de dólares por causa de calote em empréstimos e estão seriamente subcapitalizados."O crescimento da dívida dos governos, por sua vez, ameaça a disponibilidade de crédito para o setor privado. "E os efeitos do estímulo vão acabar até o início do ano que vem, exigindo mais investimento privado para sustentar o crescimento."Para Roubini, o principal motivo para uma recessão em W são os riscos na chamada estratégia de saída da maciça expansão fiscal e afrouxamento monetário adotados pelos governos contra a crise. Com ou sem estratégia de saída, os países terão problemas. Se os formuladores de políticas levarem a sério os déficits do orçamento e elevarem impostos, reduzirem gastos e enxugarem liquidez, vão sabotar a recuperação e jogar a economia em estagdeflação (recessão e deflação). Mas, se mantiverem os déficits do orçamento, as expectativas de inflação vão subir, a remuneração dos títulos do governo vai aumentar e as taxas de juros vão acabar nas alturas, levando a uma estagflação.

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