Estadão
Estadão

Rua Florida vai perder os 'arbolitos'

Cambistas de uma das mais turísticas vias de Buenos Aires estão com os dias contados

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2015 | 22h26

BUENOS AIRES - O fim do dólar paralelo na Argentina permitirá caminhar com maior tranquilidade na via mais turística do centro de Buenos Aires. Centenas de cambistas que se transformaram em um símbolo da Rua Florida, apelidados de “arbolitos” (arvorezinhas), admitem estar com os dias contados desde quando o dólar unificado passou a ser vendido em casas oficiais. Nesta quinta-feira, 17, já não havia um deles a cada cinco metros.

A colombiana María Isabel Celis deixou Bogotá para que os filhos estudassem grátis nas faculdades argentinas. Procurou emprego durante dois anos e no último tornou-se um arbolito. “Todos sabiam que isso acabaria um dia, quem não guardou é porque não teve cabeça. Ganho uns 500 pesos (o equivalente a US$ 51 na quarta-feira e a US$ 35 na quinta-feira) por dia, mas muitos aqui na rua chegaram a conseguir até 3 mil (US$ 305 na quarta-feira, US$ 214 na quinta-feira) por dia nos melhores tempos”, disse a mulher de 42 anos.

Apesar de ficar sem emprego, ela acredita que Macri tomou a melhor decisão para o país, já que a situação do câmbio era “insustentável”. Em um ano na função, María nunca foi presa. “A polícia vem de vez em quando para mostrar que trabalha.” Sua função é passar confiança a quem quer trocar dinheiro e levar até a “cueva” (caverna), apelido do escritório onde a transação é fechada, em geral sob controle de câmaras de segurança.

Os cambistas da Florida trabalham para “microempresários” que loteiam a rua. Eles decidem quem pode trabalhar ali e em que trecho. O cambista venezuelano Juán Chacón, por exemplo, tem direito a gritar “câmbio, dólar, euro, real (palavra que pronuncia em português)” em um retângulo imaginário cujos lados maiores, perpendiculares à via, são demarcados por dois canteiros de flores. Ele pode atravessar a rua, exclusiva para pedestres, encostando-se em uma loja ou outra, mas não sair de seu retângulo. “Por mês, meu chefe paga US$ 400 pelo meu espaço em suborno à polícia. Veja quantos cambistas há nessa rua e faz as contas de quanto eles ganham.”

Alternativa. Sabendo que a função estava com os dias contados, Chacón investiu em um curso de doceiro. Pretende viver disso. Ele saiu há 10 anos da Venezuela, onde era advogado. Passou três meses pela Itália, tentou a Colômbia e se fixou na Argentina há um ano. Não segue a profissão original pela dificuldade de validar o diploma e pelo gosto pela gastronomia. Há cinco meses, está como cambista no centro da capital argentina. Na quarta-feira, dia do anúncio do ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, de que chegaria ao fim o controle cambial vigente desde 2011, ele notou o sumiço dos argentinos que costumavam trocar dólares por pesos.

O caso mais comum era o dos que obtinham a burocrática autorização para comprar a moeda americana por cerca de 11 pesos e ultimamente ganhavam no paralelo 3 pesos por dólar – na quarta-feira, a cotação estava em 14,30 pesos. Essa manobra dos argentinos para esticar o salário e lutar contra a inflação, de 25%, segundo consultoras privadas, recebeu o apelido de pedalada.

A 50 metros dele, um dos raros argentinos na atividade reclamava do movimento. “Estamos perdidos. Não há clientes e quando há não estamos seguros do preço de compra e venda”, afirmou Esteban Sánchez, que já pretende voltar a pintar paredes. Ele ganha 600 pesos por dia no posto (US$ 42 pela nova cotação). Ele comprava um dólar por 14 pesos, enquanto na casa de câmbio vizinha pagava 13,50. Graças a isso, e ao fato de que as casas legalizadas ainda não vendiam a moeda americana normalmente, ainda havia algum movimento.

Turistas. A Florida atrai visitantes que não só querem trocar dinheiro, mas fazer compras. Os brasileiros, que há um ano, antes da desvalorização do real, costumavam passear cheios de sacolas, estão mais comedidos até na aquisição dos passeios comuns como shows de tango, city tours e visitas ao zoológico. Isso se deve não só à queda do poder aquisitivo do brasileiro, mas também aos preços argentinos.

“Um passeio guiado pela cidade que custava 100 pesos aumentou para 220 em menos de um ano”, exemplifica Lucas Prebetera, dono de uma agência de viagens em uma das galerias da Florida. Ele não espera um aumento imediato no número de brasileiros, mas também não desistências massivas nas viagens programadas de argentinos ao Brasil. “Quem quer ir a uma praia brasileira vai, não temos nada parecido aqui. Além disso, as pessoas tinham pouco acesso ao dólar a preço oficial (9,80 pesos até quarta-feira), a maioria precisava comprar no paralelo”, afirma Prebetera, casado com uma brasileira.

O paulista Junior Affonso, de 28 anos, havia achado justamente os passeios muito caros. “Se valer a pena voltar com a desvalorização, devo vir em julho”, projetou um dos raros brasileiros identificáveis. O vendedor de passeios Diego Valdano, de 29 anos, exibia com algum desânimo suas cartolinas plastificadas com fotos de pontos turísticos. “Baixou em 50% o movimento de turistas, dos quais 90% são brasileiros. A diminuição não foi só na quantidade, mas na qualidade. Antes vinha gente com mais dinheiro, agora ficam querendo desconto de qualquer jeito”, reclamou.

Valdano está dividido entre o efeito que a desvalorização do peso pode causar em sua vida profissional (mais turistas) e pessoal (mais inflação). “Não adianta ter mais clientes se os preços dispararem”, afirmou, referindo-se à pressão inflacionária que deve afetar, principalmente, produtos mais ligados à moeda americana.

Uma mudança positiva segundo ele com o fim do mercado paralelo é o fim dos cambistas. “Quando comecei há cinco anos, havia muito menos. Hoje mal se pode caminhar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.