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Ruas apoiarão austeridade?

Desde as manifestações de junho de 2013, a política brasileira foi transformada por movimentos que emanam das ruas e sobre os quais a estrutura partidária tradicional tem pouco controle. Esta é uma diferença notável em relação a outros episódios das últimas décadas em que grandes manifestações tiveram participação decisiva no curso da história. 

Fernando Dantas, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2016 | 05h59

Na campanha das Diretas Já e no impeachment de Collor, lideranças políticas respeitadas engajaram-se no processo em grande sintonia com as ruas. Os movimentos criaram momentos de união nacional, esperança e energia cívica, em que pesem situações econômicas muito difíceis, como a de hoje. 

Em contraste, na recente aprovação da abertura do impeachment na Câmara, um processo conduzido por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sobre quem pairam gravíssimas acusações, a sensação é de que a maioria da população sente uma rejeição apenas ligeiramente menor pelos políticos que votaram pela saída de Dilma Rousseff, quando se compara com o sentimento que nutre em relação à presidente e aos que a apoiaram. 

É contra esse pano de fundo que o vice-presidente Michel Temer, figura tradicional do jogo interno da política, e aparentemente desprovido de carisma popular, assumirá o governo, caso o Senado vote por receber o pedido de impeachment.

Desde que a Câmara aprovou a abertura do impeachment, Temer comanda uma intensa movimentação com o objetivo de começar a montar seu provável governo. Na área econômica, encontrou-se com dois dos economistas mais célebres do País, Arminio Fraga e Delfim Neto, com passagens marcantes pelo governo. Há também o esboço de um programa, o documento “Ponte para o Futuro”, de linha majoritariamente ortodoxa e liberal, endossado publicamente pelo atual vice-presidente.

Circulam nas especulações sobre o futuro ministro da Fazenda nomes como o de Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, Murilo Portugal, presidente da Febraban e o senador José Serra (PSDB-SP).

É possível, a partir desses indícios, deduzir que o governo Temer tentará ser muito duro na área fiscal, podendo recorrer a um especialista em programas sociais, como Ricardo Paes de Barros, do Insper, para minimizar os impactos do ajuste nos mais pobres. 

É uma estratégia que faz bastante sentido do ponto de vista econômico, mas está faltando combinar com as ruas. O ajuste fiscal exigirá, no curto prazo, cortar investimentos e subsídios e reduzir programas sociais sobre os quais o governo ainda tem alguma discricionariedade para alocar verbas. No médio e longo prazo, é preciso restringir o alcance e o valor dos benefícios de programas de transferências determinados em lei, o que exige a aprovação do Congresso.

Temer já assume sob o peso de recentes pesquisas que indicavam que a maioria dos brasileiros também queria o seu impeachment. Esta é uma circunstância que o atual vice pode superar, se começar seu governo com energia, competência e sorte. É comum que governados deem a governantes um período de graça e de benefício da dúvida.

Mas o mandato de Temer para presidir a duras reformas estruturais é altamente duvidoso. As ruas sem tutela partidária, o novo personagem político pós-2013, definirão em grande parte o sucesso ou o fracasso da estratégia do novo governo. Parte da efervescência evoluiu para um antipetismo de centro-direita, que poderia apoiar o novo governo, mas parece que esta parcela do eleitorado considera que o combate decisivo à corrupção pode resolver todos os problemas nacionais, inclusive o déficit público - o que é falso. Já eleitores de renda mais baixa ressentem-se da desaceleração dos programas sociais que são justamente uma das causas da atual crise fiscal. Permanece um enigma como o novo governo conseguirá domar a insatisfação das ruas e arregimentar apoio popular para um programa de austeridade.

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