Ruim com ruim

A caldeira da mais poderosa locomotiva do mundo continua falhando. E não há o que consiga reverter o baixo-astral que domina corações e mentes.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

Em poucos dias, o mundo ficou sabendo que o desemprego nos Estados Unidos aumentou, que a venda de imóveis usados caiu mais de 27% em julho (em comparação com os números de junho) e que os negócios com imóveis novos, também em julho, caíram 12%, para 276 mil unidades, o pior resultado mensal desde que esse levantamento começou a ser feito, em 1963.

É um momento em que uma informação econômica negativa reforça outra. As vendas de imóveis estão despencando porque o desemprego continua alto (de 9,5% da força de trabalho) e tende a crescer. Nessas condições, o mutuário não consegue honrar as prestações nem encontra comprador para sua casa. A devolução do imóvel ao banco que concedeu o crédito, por sua vez, exige a execução da hipoteca, aumenta o despejo de imóveis no mercado e deprime o setor.

Nesse ponto, o foco do problema é o desemprego. Mas por que ele cresce se, mal ou bem, a economia está avançando? Ora, porque os empresários não contratam. E eles não contratam porque o desemprego aumenta e os negócios com imóveis diminuem.

Isso pode parecer tautológico, assim como dizer que o sujeito é bêbado porque bebe e bebe porque é bêbado. Mas não é. Os empresários não contratam porque olham para as estatísticas de desemprego e para a de queda das vendas dos imóveis e concluem: "Com essa quebra de salário, o consumo vai cair, isso vai derrubar as vendas, nem pense em contratar mais." Assim, o emprego continua deprimido e a economia, também.

Ontem, na Bloomberg, o economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O"Neill, avisou que, se a sequência de números ruins continuar, o Fed (banco central americano) será empurrado para mais uma rodada de recompra de títulos do Tesouro, operação que está sendo chamada de afrouxamento monetário quantitativo.

Trata-se de algo heterodoxo para um grande banco central, que só mesmo uma situação de exceção justificaria. Fácil entender: se são títulos do Tesouro, foram emitidos para dar cobertura a despesas do governo. Quando os recompra com dólares que ele próprio imprime, o Fed abre espaço para a colocação de mais títulos que vêm para cobrir mais despesas.

Os juros já estão próximos do zero. O Fed não pode baixá-los mais. Dia 10, anunciou que não reduziria o total de empréstimos feitos durante a crise, equivalente a US$ 2,05 trilhões. À medida que, no vencimento, os recebesse dos devedores, remeteria os recursos de volta ao mercado por meio da recompra de títulos do Tesouro. Agora, reforça-se a percepção de que essa soma não seria suficiente para reerguer a situação econômica.

Em 2009, o afrouxamento quantitativo ajudou a tirar a economia da prostração. Agora, não há a mesma certeza de que novas injeções diretas reativariam o crédito, os negócios, o consumo e a produção sem provocar efeitos colaterais. Por isso, o Fed pode recolocar em marcha seu plano heterodoxo - na contramão da recomendação dos conservadores que sugerem a retomada da alta dos juros para perfurar novas bolhas já em formação.

A Petrobrás sangrando

As indefinições do governo e a demora em formatar o processo de capitalização da Petrobrás são as principais responsáveis pela desvalorização das ações da Petrobrás no mercado. O gráfico mostra como foi a queda ao longo deste ano. As ações preferenciais (PN) perderam 27,3% do seu valor em 2010, 5,7% apenas em agosto.

Controlador sem capital

A questão de fundo é a necessidade de aumentar fortemente o capital de uma empresa estatal sem que o Tesouro tenha recursos para isso.

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