Olivia Zhang/AP - 28/11/2019
Olivia Zhang/AP - 28/11/2019
Imagem Guy Perelmuter
Colunista
Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Rumo à neutralidade

A agenda ESG segue ganhando força entre investidores, empresas e governos ao redor do mundo

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 06h43

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change) foi estruturado pelas Nações Unidas em 1988 para analisar cientificamente o tema do aquecimento global, um dos maiores riscos que enfrentamos globalmente. Conforme já falamos aqui, no último dia 9 de agosto seu relatório foi publicado, levando o secretário-geral António Guterres a declarar que tratava-se de "um alerta vermelho para a humanidade''. 

vimos que desde meados do século XVIII, com a popularização do motor a vapor durante a Primeira Revolução Industrial, a sociedade vem aumentando sua demanda por energia e elevando os níveis de poluição no meio ambiente. Estudos realizados pelo NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, agência científica ligada ao Departamento de Comércio do governo dos Estados Unidos) apontaram uma elevação na concentração de dióxido de carbono na atmosfera da ordem de 40% nos últimos 250 anos, majoritariamente em função da queima de combustíveis fósseis. Isso gerou um aumento na temperatura média do planeta entre 0,8°C e 1,2°C – sendo que os efeitos de um aumento superior a 1,5°C podem ser devastadores e potencialmente irreversíveis, conforme relatório publicado em outubro de 2018 pelo IPCC.  

No documento final produzido na COP-26 — a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ocorrida em novembro último na cidade de Glasgow —  o limite de 1,5°C é explicitamente mencionado, bem como a necessidade de redução do uso sem restrições de carvão e a necessidade dos países participantes apresentarem metas concretas para redução de suas emissões no ano que vem. Embora certamente o evento tenha avançado com a pauta de preservação do meio ambiente, muitos acreditam que os compromissos estabelecidos ficaram aquém do necessário considerando-se a urgência da situação.

Em termos de políticas públicas, o Acordo de Paris (assinado por 191 países) é um importante sinalizador do engajamento de governos ao redor do mundo em relação a medidas para combater as mudanças climáticas. De acordo com a Energy and Climate Intelligence Unit (Unidade de Inteligência da Energia e do Clima), uma organização sem fins lucrativos baseada no Reino Unido, 137 países comprometeram-se em tornar-se “carbono neutros”, ou seja, não gerar impacto negativo no meio ambiente com suas emissões. Destes, dois já atingiram este objetivo: Butão e Suriname. O Uruguai indicou que irá atingir a neutralidade em 2030, a Finlândia em 2035, Áustria e Islândia em 2040, Alemanha e Suécia em 2045, China, Cazaquistão e Ucrânia em 2060, e Austrália e Cingapura entre 2050 e 2100. Todos os outros 124 países – inclusive o Brasil – estabeleceram o ano de 2050 como meta.

Mesmo assim, a grande maioria dos países não estabeleceu leis para exigir o cumprimento da neutralidade de carbono: as exceções são Dinamarca, França, Hungria, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido. Já o Canadá, Chile, Fiji, Coreia do Sul, Espanha e a União Europeia estão discutindo uma proposta concreta de legislação. Há vinte e quatro países, incluindo o Brasil e os Estados Unidos, que definiram suas metas em políticas oficiais. Para 99 das 137 nações, o compromisso está apenas “em discussão”.

A gravidade da situação vem acelerando negócios a adotarem metas de carbono neutro – em linha com a agenda ESG (Environmental, Social and Governance, ou Meio Ambiente, Social e Governança). A iniciativa Global Compact, das Nações Unidas, agrega cerca de 12.000 empresas (sendo aproximadamente 10% do Brasil) de mais de 160 países com o objetivo de “alinhar estratégias e operações com princípios universais de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção.”

De forma geral, empresas procuram eliminar suas próprias emissões – incluindo aquelas causadas pelo uso de energia elétrica gerada por fontes não-renováveis – bem como emissões geradas em sua cadeia logística. Aquelas emissões que não forem eliminadas são então compensadas, normalmente através da aquisição dos chamados créditos de carbono. Esses “créditos” representam o resultado de algum projeto (de reflorestamento, por exemplo) que esteja retirando do meio ambiente uma quantidade equivalente às emissões não neutralizadas pela empresa. Vale mencionar que a COP-26 também formalizou sua aprovação em relação ao mercado de carbono, no qual países podem negociar uns com os outros a compra ou venda de emissões.

Nesta última coluna de 2021, aproveito para agradecer sua leitura e desejar um Ano Novo repleto de saúde e realizações, e reforçar a expectativa de um 2022 com menos sobressaltos e com avanços importantes para o futuros dos negócios. Até lá. 

**FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.