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Rumo ao imprevisível

O governo da Argentina deu um passo para o imprevisível. Reconheceu que a inflação anterior estava calculada com bases estatísticas irrealistas e garantiu que passará a publicar números não manipulados. E agora?

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h07

A inflação do peso argentino em janeiro sob a nova metodologia supervisionada pelo Fundo Monetário Internacional foi de 3,7%. No critério anterior, ficaria abaixo de 0,8%. Ao longo de todos esses anos, a inflação publicada pelo Indec, o organismo oficial, não passava dos 9,9% ao ano, enquanto as estimativas divulgadas pelos institutos privados apontavam algo entre 27% e 32% ao ano (veja o gráfico).

A inflação oficial de janeiro na Argentina é uma enormidade. Se nos 11 meses seguintes esse número se repetir, a inflação de 2014 será de 55%. Mas bastaria que fosse de 2% para que o acumulado no ano atingisse as projeções anteriores das consultorias.

A aceitação de novos critérios para cálculo da inflação tem consequências que não são apenas estatísticas. Como salários e aposentadorias têm de ser reajustados com base na inflação passada, há risco de uma disparada dos preços rumo à hiperinflação e de que se reduza drasticamente a capacidade do governo argentino de honrar seus compromissos internos e externos. Março e abril são temporada forte de negociações salariais e vai ser difícil o governo esconder o que começam a dizer os números oficiais.

Esse é especialmente um problema do setor público. O governo de Cristina Kirchner terá de decidir se garante ou não reajustes condizentes com os novos dados, de salários dos funcionários públicos e dos benefícios dos aposentados.

A maior parte das províncias está quebrada, sem condições de atender às novas reivindicações dos funcionários públicos. Isso significa que devem crescer as pressões dos governadores sobre o governo central para que aumente as transferências de recursos. Por aí se vê que o rombo das contas públicas tende a avançar. Nesse cenário, aumenta o risco de uma corrida ao dólar, num quadro já rarefeito de reservas internacionais.

Ficam à espera de resposta três perguntas intrigantes. A primeira: até que ponto o governo argentino está disposto a cumprir a disposição anunciada de divulgar a inflação real ou, diante das consequências, até quando estará disposto a divulgar dados honestos? A confiança está quebrada e não vai se recompor tão cedo porque os técnicos coniventes com a manipulação das estatísticas anteriores são os mesmos que vão agora calcular os preços sob nova metodologia. Além disso, seguem pairando suspeitas mesmo sobre os números novos, uma vez que as instituições independentes chegaram a resultados mais altos.

Segunda pergunta até que ponto números mais realistas do que os anteriores também passarão a ser divulgados em outros indicadores da economia, como evolução do PIB, resultado das contas públicas e contas externas?

E terceira: o que fará o governo argentino para evitar uma hiperinflação que pudesse provir de movimentos de defesa da sociedade e para corrigir os outros desequilíbrios da economia?

Não há respostas claras para nenhuma dessas perguntas.

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