Rumor de intervenção do BC faz dólar cair na Argentina

?Já decidimos. Não posso enganar as pessoas e não dizer o que vamos fazer.? Esta frase serviu de prólogo ao presidente Eduardo Duhalde para anunciar nesta quinta-feira que o governo decidiu ?colocar? o dólar na faixa de 1,70 peso. Na véspera, a moeda americana havia subido, chegando a 2,20 pesos. Para impedir que a alta continuasse, o Banco Central teria realizado uma intervenção no mercado cambial, colocando US$ 25 milhões.Nesta quinta, segundo fontes do mercado, o BC estava preparado para intervir novamente. A intenção era conter uma nova alta da moeda americana, que durante a manhã chegou a 2,30 pesos. Mas a intervenção não teria ocorrido, já que, mesmo antes de ser concretizada, o rumor de que ela aconteceria ? somado às declarações de Duhalde - causou uma ida às casas de câmbio por parte de pessoas e empresas que pretendiam aproveitar a alta cotação antes que ela começasse a declinar.AtritosAo meio-dia o dólar já estava oscilando entre 2,07 pesos e 2,15 pesos nas principais casas de câmbio da city financeira portenha. A moeda americana fechou o dia em 2,10 pesos. Mas esta política do governo está começando a causar atritos com o BC, que pretendia aplicar um modus operandi mais secreto sobre as eventuais ingerências para conter a moeda americana em patamares ?razoáveis?.O próprio Mario Blejer, presidente do BC, e o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, haviam declarado que qualquer intervenção teria que ser feita com extrema confidencialidade.?País doente?Durante seu programa de rádio, emitido três vezes por semana, o presidente Duhalde disse que ?a Argentina é um país doente?. Duhalde, que governa o país há quase dois meses, sustentou que ?todos os setores que reclamam têm razão?, em referência aos protestos populares ocorridos em todo o país nesta quarta-feira.O presidente pediu paciência à população e disse que em fins de maio a economia do país começará a exibir sinais de recuperação: ?Nesse mês, o ânimo dos argentinos será diferente?. Mas a sensação de que o país está à beira de um vulcão predomina em muitos setores do governo.O ministro do Interior, Rodolfo Gabrielli, alertou para o risco de ?explosões sociais nas províncias?. No entanto, o ministro disse que tinha confiança nas medidas econômicas do governo e que ?essas explosões poderão ser controladas, e a Argentina encontrará seu rumo?. Para que isso aconteça, argumentou, o governo federal e as províncias devem fazer um forte ajuste fiscal.Duhalde confessa ?erro?Fazendo uma análise de seu governo de quase dois meses, o presidente confessou que foi um erro, ao tomar posse, ter prometido que os depósitos feitos em dólares seriam devolvidos aos correntistas nessa mesma moeda. ?Quando tomei posse me disseram que havia dólares suficientes. Mas não foi assim. Soube depois que os dólares haviam sido levados embora?, lamentou.Sem perspectivas de um futuro melhor a curto ou médio prazo, os milhões de desempregados argentinos, com mais de três anos e meio de recessão nas costas, estão céticos sobre a reativação alardeada pelo presidente Duhalde.82% pensam em emigrarSegundo uma pesquisa da consultora Gloria Cassano e Associados, 82% dos desempregados que moram na Grande Buenos Aires emigrariam já do país se pudessem. Destes, 17% já estão com projetos de abandonar a Argentina. O resto pretende partir, mas não sabe como.Mas não somente os desempregados emigrariam. Segundo a pesquisa, 32% das pessoas com trabalho também deixariam o país. Os motivos desta vontade de emigrar, afirma a consultora, ?são as questões sociais, econômicas, além de uma grande descrença na política do país?.Leia o especial

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