Rússia importa produto com origem maquiada

Para continuar vendendo ao mercado russo, exportadores de países sob embargo disfarçam procedência e vendem até ostras de regiões sem mar

Jamil Chade - Correspondente, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2014 | 02h03

GENEBRA - Frutas do deserto do Marrocos, frango do Casaquistão, legumes da ilha rochosa do Chipre e - por que não - até ostras de países sem mar. O embargo da Rússia sobre produtos agrícolas europeus faz produtores de todo o continente desviarem o fluxo de comércio, promover fraude, etiquetar caixas com nomes de outros países e fazer contrabando para entrar no mercado russo.

Há uma semana, Knightsbridge Foods, uma empresa inglesa, anunciou que mudou de fornecedor para garantir que seus negócios com a Rússia sejam mantidos. Para vender legumes aos supermercados russos, os ingleses abandonaram seus parceiros europeus e passaram a comprar de fornecedores do norte do Chipre, fora do embargo. Dali, os produtos podem seguir para a Turquia e, depois, para a Rússia.

Outro fenômeno tem sido o contrabando de produtos, levados por indivíduos. As regras estabelecidas por Moscou permitem que, para consumo próprio, uma pessoa possa retornar da União Europeia com alimentos. O problema é que, nos últimos dias, as aduanas russas têm se deparado com supostos turistas russos retornando de "férias" com quilos de alimentos. Numa dessas descobertas, a aduana russa prendeu um homem com 70 quilos de carne de pato francês.

Mas é o uso de países fora do embargo que mais preocupa. Exportadores de frutas da França têm levado seus produtos ao Marrocos e, de lá, exportado para a Rússia, em caixas e documentos falsos.

Outro temor é de que a Bielorrússia também seja usada, principalmente por ter acordo de livre-comércio com a Rússia. Relatos na imprensa russa chegaram a falar de exportações de ostras da Bielorrússia, um país sem mar. Na semana passada, caminhões com 20 toneladas de frango americano foram interceptados entre o Casaquistão e a Sibéria.

Nos últimos dias, o presidente russo, Vladimir Putin, telefonou aos presidentes dos países vizinhos fazendo alertas em relação ao comércio. Mas o temor de diplomatas russos na OMC é de que o embargo seja violado usando territórios e países na Europa que não fazem parte do bloco, como Suíça, Ilhas Faroe e Liechtenstein.

Em Bruxelas, a Comissão Europeia foi obrigada a abrir seus cofres para subsidiar produtores agrícolas. Não por acaso, seus diplomatas hoje deixam claro que não vão lutar contra o desvio de exportações.

O problema tem preocupado os países que começam a ser usados como rotas. Governos vem dando declarações apontando que não permitirão que seus territórios sejam manipulados, temendo ser alvos de sanções pela Rússia.

O governo da Suíça anunciou que estava recusando pedidos de empresas europeias de transferir ao país parte da produção de alimentos que iria para a Rússia. O país também prometeu não permitir que homens de negócios da Rússia usem seus bancos e seu mercado para driblar as sanções do Ocidente.

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