Rússia prepara nova revolução capitalista

Duramente atingido pela crise global, país terá mais um processo de privatização e elege setores que receberão investimentos e subsídios

Jamil Chade / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

A crise financeira global desencadeou uma nova revolução na Rússia que, segundo economistas e especialistas, nem mesmo a queda da União Soviética, há 20 anos, conseguiu promover. Com a contração na economia e a falta de investimentos externos, o Kremlin se lançou em uma ofensiva para acabar com os feudos criados ainda nos anos soviéticos e que, na transição, foram mantidos - desta vez, com grupos privados e magnatas.

A pior crise econômica no mundo em 70 anos jogou a Rússia, segundo o próprio governo, em sua segunda revolução capitalista na era pós-URSS. A meta da nova reforma é a de dar competitividade à economia russa, privatizar US$ 50 bilhões em ativos do Estado, diminuir o poder de oligopólios, vender times de futebol e hotéis, facilitar abertura de empresas e reduzir a dependência no setor de energia.

Com a crise e a queda de créditos e investimentos, a constatação do governo foi de que o país sofria para atrair capital privado exatamente por conta dos feudos locais, que transformaram quase todos os setores estratégicos em oligopólios.

A Rússia tem sido o patinho feio dos Brics. Em 2009, a economia se contraiu 7,9%. Uma recuperação levará ainda dois anos e o PIB só deve voltar aos patamares de 2008 em 2012. Nos próximos três anos, a taxa de expansão será de 4%, menos da metade da que terá a China. "Precisamos atrair capital estrangeiro", afirmou o vice-primeiro-ministro, Igor Shuvalov. "Será muito difícil modernizar a economia só com nossos próprios recursos."

A ideia inicial era vender ativos do governo num valor de US$ 29 bilhões. Mas várias empresas foram adicionadas na semana passada ao plano. "Teremos um programa de privatização que chegará a US$ 50 bilhões em cinco anos", disse o ministro das Finanças, Alexei Kudrin.

No projeto original, o governo venderia ativos de empresas como Rosneft e Rushydro, do setor de energia. Agora, a meta é a de expandir o número de segmentos. "Até clubes de futebol que ainda são estatais serão vendidos. Não faz sentido o dinheiro público ir para pagar salários de jogadores", afirmou ao Estado Evgeni Giner, presidente do CSKA Moscou, clube onde atua o brasileiro Vágner Love.

Reações. Esse plano já recebeu duras críticas dos executivos e magnatas, como Nikolai Tokarev, presidente da operadora de gasodutos Transneft. A empresa é estatal, mas terá parte de suas ações colocadas ao mercado.

"A opinião de executivos de estatais não importa. A decisão é do governo", afirmou Kudrin. "A privatização é chave para a modernização da nossa economia, Só assim teremos os mesmos índices de crescimento que os demais emergentes."

Um dos principais problemas que a Rússia enfrentará, porém, é a desconfiança que existe em relação ao processo de privatização no país. Há 20 anos, a desestatização virou sinônimo de palavrão. Ativos foram vendidos a preços mínimos para um grupo limitado de empresários que acabaram fazendo fortuna da noite para o dia.

O processo de venda das estatais ainda foi marcado por acusações de corrupção e há disputas que até hoje não foram solucionadas, como a guerra entre a Norilsk Nickel, maior produtora de níquel do mundo, com Oleg Deripaska, CEO da Rusal, maior produtora mundial de alumínio. Mas o governo garante que, desta vez, a reforma e a nova privatização não significarão a ausência de controle do Estado.

Uma das metas da Rússia é usar os recursos da privatização para incrementar a produção e a competitividade de setores fora da área de energia. Moscou não quer mais ficar dependente do setor de gás e petróleo, vulnerável à volatilidade dos preços no mercado internacional. Hoje, 74% de toda a exportação russa para a China, por exemplo, é de energia e produtos relacionados com o petróleo e gás.

O gabinete do primeiro-ministro Vladimir Putin já identificou áreas estratégicas - como máquinas, veículos, agricultura e aeroespacial - para dar subsídios e manter barreiras protecionistas. Na semana passada, por exemplo, Putin prometeu às montadoras incrementar incentivos e até elevar impostos de importação. Mas a contra-partida é de que montadores estrangeiras que estão na Rússia precisarão incrementar o porcentual de peças fabricadas no próprio país nos veículos. A meta é a de ter até 60% dos carros com peças locais em seis anos.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO COMITÊ DA CANDIDATURA DA RÚSSIA PARA A COPA DE 2018

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