Aleksey Nikolsky/EFE - 21/2/2022
Aleksey Nikolsky/EFE - 21/2/2022

Sergio Vale: ‘Crise da Ucrânia vai muito além da economia para o Brasil’; leia análise

Ucrânia é importante produtor de commodities, sendo o quarto maior exportador de milho

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 13h24

Em artigo para o New York Times, em 1997, o lendário diplomata americano George Kennan indicou que seria um erro fatal expandir a Otan, o que só faria aumentar o nacionalismo e espírito antiocidental dos russos. Dito e feito: décadas depois, a previsão de Kennan se mostra correta, não sem a própria ajuda da Rússia, que em um ímpeto expansionista atiçou ainda mais o nacionalismo da ex-república soviética, especialmente depois dos ataques na Geórgia e da anexação da Crimeia. O que o Brasil tem a ver com essa história?

A Ucrânia é importante produtor de commodities, como milho e trigo, sendo o quarto maior exportador do primeiro. Além disso, o efeito no preço do gás natural tem sido evidente, ajudando a pressionar também o mercado de petróleo, que se aproxima rapidamente de US$ 100 o barril. Assim, para nós há o efeito positivo de preços de commodities mais elevados, com o agravante que no caso do petróleo manterá a pressão sobre os combustíveis nas próximas semanas. Será inevitável algum repasse adicional da Petrobras para os preços, mas também a pressão para que o Congresso dê alguma resposta, como alguma versão da PEC dos Combustíveis. O efeito da Ucrânia, nesse sentido, pode ser bastante negativo ao acelerar medidas de quedas artificiais de preços de combustíveis que, pelos custos fiscais, acabem piorando o cenário, com aumento do risco levando a mais depreciação do câmbio e aumento dos juros.

Para além da economia, a diplomacia brasileira terá de ter cautela. Se a Rússia não é nosso foco de atenção, a China e os EUA são e, nesse caso, o conflito ucraniano tem servido de teste de força entre o mundo multipolar que está sendo construído. O Brasil não tem mostrado habilidade em navegar nesses mares turbulentos como fazia no passado, muito fruto dos desgastes causados pelo governo Bolsonaro com China, Europa e EUA. O desafio para o Brasil nesse novo mundo que começa a surgir demandará esforços tanto econômicos quanto diplomáticos, em grau acima do que estávamos acostumados nas últimas décadas.

* Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.