Gleb Garanich/Reuters
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Russos negociam com o Brasil para investir no pré-sal

Representantes da ANP e da Petrobrás conversaram com empresas do setor de energia da Rússia que querem se estabelecer no País

Jamil Chade / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Os russos vão desembarcar no Brasil. Empresas do setor de gás natural e de tecnologia de extração vão abrir escritórios no Rio de Janeiro e propõem investimentos no pré-sal para permitir que se explore não apenas o petróleo, mas também para capturar e comercializar o gás que sairá das reservas.

Há uma semana, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e a Petrobrás mantiveram conversas preliminares em Moscou com algumas das gigantes do setor, entre elas a Gazprom - a maior empresa de gás natural do mundo.

A decisão foi a de iniciar rodadas de negociações ainda neste ano, no Brasil, para tentar identificar de que forma o investimento russo poderia ser incorporado aos projetos do pré-sal. "Eles (russos) se mostraram muito interessados em fazer o processo caminhar rápido", afirmou Carlos Paranhos, embaixador do Brasil na Rússia.

No segundo trimestre do ano, a estatal Gazprom obteve lucros três vezes maiores que os obtidos no início de 2009, com um total líquido de US$ 10,6 bilhões. Depois de ser afetada pela crise em 2008 e pela queda do consumo de gás na Europa com a recessão, a empresa volta agora a lucrar e pensar em novos investimentos. Nesse processo, o Brasil aparece como uma das prioridades, além do mercado asiático, que continua em plena expansão. Por enquanto, os valores dos investimentos não estão sendo divulgados.

Estratégia. Mas, segundo Paranhos, a Gazprom será a primeira a ter um escritório no País, já com vistas a uma presença permanente no pré-sal a partir deste ano. Empresas como a Zarubezhneft e a Power Machines também estão entre as que participam das negociações.

O próprio Kremlin considera a aproximação como parte de uma estratégia política na América do Sul.

"O governo russo está preparado para fornecer uma ampla variedade de serviços no setor de energia para garantir a expansão da cooperação entre Brasil e Rússia", afirmou Stanislav Dorzhunkevich, um dos principais representantes do Ministério de Energia da Rússia.

Esta não é a primeira vez que os russos ensaiam um desembarque no Brasil para investir no setor de energia. Há cinco anos, a Gazprom deixou claro que gostaria de participar das obras de dutos entre Venezuela e Brasil.

Segundo o jornal Moscow Times, de língua inglesa, empresas estrangeiras ainda têm um acesso limitado ao setor de energia no Brasil e afirma que o segmento anda é caracterizado por um "alto nível de controle estatal". Para o jornal, o fato de a candidata a presidente Dilma Rousseff ter sido ministra de Energia mostra a importância do setor na estrutura de poder no Brasil.

A aproximação entre empresas russas e brasileiras teria um sentido muito mais estratégico que benefícios tecnológicos reais para o Brasil. "A Rússia empresta sua reputação, enquanto a iniciativa permite que o Brasil mostre que está se abrindo, sempre em seu termos e condições", afirmou Andrew Neff, analista da IHS Energy, entidade com sede em Washington.

Outra prioridade da Rússia é o de direcionar mais seu abastecimento de gás para a China, reduzindo o fluxo para a estagnada Europa. Ontem, Pequim e Moscou fecharam um acordo para garantir o fornecimento de energia pela Gazprom no mercado chinês.

O primeiro fornecimento ocorrerá em 2015, mas ainda não está estabelecido o preço. A previsão é de que 70 bilhões de metros cúbicos de gás natural seriam enviados da Gazprom para a China por ano.

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Interesse

CARLOS PARANHOS

EMBAIXADOR DO BRASIL

"Eles se mostraram muito interessados em fazer o processo caminhar rápido"

STANISLAV DORZHUNKEVICH

REPRESENTANTE DO MINISTÉRIO DE ENERGIA DA RÚSSIA

"O governo russo está preparado para fornecer ampla variedade de serviços no setor de energia"

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