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Sábado no shopping

Corredores cheios,muitas lojas vazias e consumo ainda travado

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2019 | 05h00

Situado na “esquina” da Zona Leste com a Zona Sul, São Paulo, este shopping center é um dos mais de 560 existentes no Brasil, onde famílias de todas as classes sociais passam boa parte de seus fins de semana. Como se transportassem a rotina de suas vidas para o abrigo de uma bolha. Tomam lanche, vão ao cinema, levam os filhos para brincar e, eventualmente, fazem compras.

Enquanto circulam pelos corredores, muitos frequentadores nem percebem as paredes cobertas de cartazes indicando as próximas atrações. O aviso “em breve, mais uma loja...”, destacado nos painéis multicoloridos, tenta mostrar a quem estica o olhar para o lado que o shopping está em pleno movimento. Engano. Anúncios como esse escondem os espaços vazios espalhados pela maioria dos shoppings, mas escancaram a crise que castiga o varejo. Com consumo fraco e pressionadas pela cobrança de pesados encargos, muitas lojas fogem dos shoppings para as ruas, desmontam instalações e buscam a sobrevivência na internet ou simplesmente quebram.

Os números relativos ao desempenho do setor apenas confirmam essa dura realidade. Um exemplo eloquente é o da geração de empregos com carteira assinada, monitorada pelo Caged: enquanto o conjunto das atividades econômicas mostrou, em junho, o melhor resultado para o mês desde 2013, o comércio continuou sangrando, com a eliminação de 3 mil postos de trabalho – e, no semestre, foi o único setor com saldo negativo, uma perda de quase 89 mil vagas.

Com tudo isso, é mais do que natural que qualquer estímulo ao consumo alimente uma esperança de reanimação do setor. Aqui e ali, aparecem alguns sinais de alívio no clima econômico, especialmente depois da aprovação em primeiro turno da reforma da Previdência – mesmo que esse alívio possa ser traduzido em “parou de piorar” e ainda seja invisível nos shoppings, onde corredores lotados contrastam com muitas lojas vazias e vendedoras sonolentas. Algumas empresas comemoram discretamente uma melhora de vendas nos últimos meses e torcem para que o clima político não trave de novo a economia. As projeções do Ibevar, que reúne executivos de varejo e mercado de consumo, são modestas: um crescimento de vendas de 0,66% no terceiro trimestre sobre o anterior.

É dentro dessa moldura que devem ser avaliadas tanto a finalmente anunciada liberação dos saques das contas ativas e inativas do FGTS como a prevista redução do juro básico, na reunião do Copom desta semana. É pouco, diz grande parte dos analistas. No caso do FGTS, o que pode pingar já nas contas dos contribuintes é no máximo R$ 500 – apenas 15% da média do endividamento dos consumidores e muito abaixo do que foi alardeado pela própria equipe econômica. Prova é que parlamentares já se mexem para tentar ampliar esse valor. E, no caso da Selic, o que deve vir agora é um corte de 0,5 ponto porcentual, após a taxa ter caído a menos da metade, desde meados de 2016.

Será que R$ 500 a mais no bolso do consumidor e meio ponto a menos no juro conseguirão empinar as vendas? Os índices de confiança do comércio e do consumidor não parecem ter se “sensibilizado” com esses incentivos, cantados já há um bom tempo. No sábado ensolarado de outono, motoristas disputam ferozmente as vagas nos estacionamentos dos shoppings. Os “templos do consumo” mantêm seus adeptos. Mas consumo mesmo, dentro das lojas, ainda é um artigo em falta.

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