Dida Sampaio/Estadão
Para Sachsida, País não está 'de maneira alguma, de jeito nenhum' quebrado. Dida Sampaio/Estadão

Sachsida diz que, ao falar de País 'quebrado', Bolsonaro reforça defesa de consolidação fiscal

Para secretário, presidente usou 'jargão popular' para mostrar que tem conhecimento da delicada situação das contas públicas do País e também apoiar a agenda de reformas

Mateus Fagundes, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 22h35

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, considera que o presidente Jair Bolsonaro usou um "jargão popular" ao dizer que o Brasil está "quebrado" e que essa declaração do chefe do Poder Executivo reforça o compromisso do governo com a consolidação fiscal, porque mostra que a gestão federal não pode conceder novos benefícios tributários e que tem conhecimento da situação delicada das contas públicas.    

"O que o presidente deu foi uma tremenda declaração em defesa da consolidação fiscal, mostrando o compromisso do presidente da República com a estabilidade macroeconômica. Eu pessoalmente acho que é um tipo de declaração que mostra para todo o mercado que o presidente está sim comprometido não apenas com agenda de reformas, mas com a agenda de consolidação fiscal", afirmou Sachsida à CNN.

A apoiadores hoje cedo, Bolsonaro disse que não "consegue fazer nada" e citou como exemplo supostas mudanças na tabela do Imposto de Renda estudadas pelo governo no ano passado. "O Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do imposto de renda, tá (sic), teve esse vírus, potencializado pela mídia que nós temos, essa mídia sem caráter", afirmou Bolsonaro a um apoiador na saída do Palácio da Alvorada nesta manhã.    

Para Sachsida, o Brasil não está "de maneira alguma, de jeito nenhum" quebrado. Ele reforçou o discurso da equipe econômica de que o País está se recuperando depois do tombo na atividade em 2020 por causa da pandemia de covid-19.    

"É claro que o primeiro trimestre ainda tem questões relacionadas à pandemia, ainda é um pouco mais difícil. Mas ao longo do primeiro semestre a economia vai melhorando. Vai ser um bom ano. O setor privado está entrando forte, as reformas econômicas estão andando", declarou.    

Para o secretário, é um equívoco dizer que a agenda do governo não está avançando, citando as votações do marco do saneamento, da independência do Banco Central e o projeto da BR do Mar, entre outros, reforçando a necessidade de diálogo com o Congresso nestes temas. Mas ele fez um mea-culpa. "Eu infelizmente não consegui criar alguns consensos. Quem sabe a partir de hoje a gente consiga criar mais consenso e avançar nisso?", disse.

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Economistas respondem a Bolsonaro: Brasil não está quebrado, mas governo precisa fazer escolhas

Segundo especialistas, País tem boa situação financeira, mas precisa avançar na aprovação de medidas essenciais para a sustentabilidade das contas públicas, como as reformas tributária e administrativa

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 19h48

BRASÍLIA - Economistas ouvidos pelo Estadão são taxativos no contraponto ao presidente Jair Bolsonaro: o Brasil não está quebrado, mas é preciso fazer escolhas para ampliar gastos, incluindo o avanço na aprovação de medidas essenciais para a sustentabilidade das contas públicas. 

Nesta terça-feira, 5, ao responder um apoiador que o cobrou sobre o aumento da isenção do Imposto de Renda (hoje, concedido a quem ganha até R$ 1,9 mil por mês), Bolsonaro disse: "Chefe, o Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada".

Para economistas, porém, o presidente pode, sim, se empenhar para a aprovação da reforma administrativa que prevê uma reformulação no RH do Estado, com mudanças na forma como os servidores são contratados, promovidos e demitidos. Ou cortar os chamados benefícios tributários, quando a União abre mão da arrecadação em favor de grupos específicos. Com esse discurso, a avaliação é de que o presidente posterga e acumula os problemas. 

Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional dos governos Temer e Bolsonaro

O Brasil não está quebrado. O presidente quis dizer talvez que, apesar da carga tributária elevada aqui, mesmo cumprindo com o teto dos gastos, ainda teremos este ano e nos próximos déficit primário e crescimento da dívida pública. Assim, não há espaço para o governo abrir mão de arrecadação porque ainda teremos que reduzir o mais rápido possível o desequilíbrio fiscal ao longo dos próximos anos para consolidar o cenário de inflação na meta, juros baixos e recuperação da economia.

A situação é a seguinte: hoje, o Brasil não pode abrir mão de R$ 1 de receita e ainda tem que se esforçar para recuperar neste e nos próximos anos a arrecadação que perdeu com a crise da covid-19 na queda do Produto Interno Bruto (PIB) e na arrecadação.  

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC)

O Brasil não está quebrado. O Brasil quebrou várias vezes no passado por falta de dólares. E quebrou em cruzados novos pela hiperinflação deixada pelo ex-ministro Maílson da Nóbrega com sua política de feijão com arroz. Hoje, o Brasil é credor líquido em dólares, tem a taxa de juros mais baixa da história, saiu em V da recessão e a renda média aumentou no ano passado. Fala que o País está quebrado somente quem não conhece economia. Mas presidente é presidente. Bolsonaro falou isso para ninguém pedir ajuda. Ele quis barrar pedidos de verbas ao governo. Quando ele prometeu ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda era outra época. Hoje, mudou tudo. É outro mundo. O presidente tem que falar não e não.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados

Iniciando a metade final de seu mandato, o presidente indica que não conseguirá fazer mais nada de relevante. Ao sugerir mãos atadas por um país quebrado, ele esquece de que poderia fazer uma reforma administrativa que envolvesse o funcionalismo da ativa e que poderia ir além na PEC emergencial, discutindo gastos tributários como a Zona Franca de Manaus. Ou que pudesse entrar em acordo sobre as reformas tributárias na Câmara e no Senado, mais profundas do que a apresentada pelo Ministério da Economia. Mas não. Ao sair com esse discurso por falta de força política o presidente posterga e acumula os problemas para 2023, início de um novo governo. Serão dois anos que, pelo jeito, veremos o Executivo bater cabeça como ficou o governo Temer depois da delação da JBS. Vamos, novamente, viver em compasso de espera.

Guilherme Tinoco, especialista em contas públicas

O Brasil não quebrou. O País vive um momento econômico complicado e, em termos fiscais, há que de fato se ter muita responsabilidade. A dívida do país cresceu bastante, atinge níveis recordes e segue sendo uma das mais altas, senão a maior, entre países emergentes. Isso não é desculpa, contudo, para nada fazer. Esse discurso não serviu, por exemplo, para impedir o aporte bilionário de recursos na empresa estatal militar, Engeprom, ou a concessão de aumento salarial aos militares. Esse discurso também não tem sido suficiente para mobilizar o governo para realizar as reformas necessárias.

Onde está a reforma administrativa? Onde estão as privatizações prometidas? E o anúncio de corte nos benefícios fiscais? Também é importante lembrar que o atraso na vacinação custa bastante, em termos financeiros, conta que um país quebrado não pode suportar. A cada 1 ponto percentual de PIB perdido por conta desse atraso, o governo deixa de arrecadar um montante próximo ao valor da privatização da Eletrobrás.

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Bolsonaro diz que País está 'quebrado' e culpa covid por não ampliar isenção no IR

A mudança na tabela do Imposto de Renda é uma das promessas de campanha do presidente que não saíram do papel

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 12h00
Atualizado 05 de janeiro de 2021 | 22h37

BRASÍLIA - Em seu primeiro dia de trabalho em 2021, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta terça-feira, 5, que o Brasil está ''quebrado". Para apoiadores, ele disse que não "consegue fazer nada" e citou como exemplo as mudanças na tabela do Imposto de Renda

"O Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda, tá, teve esse vírus, potencializado pela mídia que nós temos, essa mídia sem caráter ", afirmou Bolsonaro a um apoiador na saída do Palácio da Alvorada, residência oficial. 

A fala do presidente vai de encontro às declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a atividade econômica do País está numa trajetória em 'V', ou seja, com a retomada na mesma velocidade da queda por causa dos efeitos da pandemia do novo coronavírus. 

Tanto Guedes quanto o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, defendem a vacinação em massa da população como essencial para que a economia, de fato, se recupere em 2021. A equipe econômica projeta uma retração de 4,5% no PIB em 2020, com uma recuperação de 3,20% neste ano.

No último ano, o governo precisou se endividar mais para bancar o aumento das despesas para combater a covid-19. A combinação da maior necessidade de financiamento com a aversão ao risco dos investidores, turbinada pela desconfiança em relação à continuidade do processo de ajuste fiscal no Brasil, levou o Tesouro Nacional a concentrar boa parte das emissões em títulos de prazo mais curto.

Como mostrou o Estadão, o Tesouro começa 2021 com uma fatura trilionária a ser paga aos investidores. A dívida que vence neste ano já somava R$ 1,31 trilhão no fim de novembro de 2020, valor que deve continuar crescendo à medida que mais juros vão sendo incorporados. O desafio chega num ano decisivo para ditar os rumos das reformas consideradas essenciais para o equilíbrio fiscal do País – e, consequentemente, para a capacidade de pagar toda essa dívida no futuro.

O volume de vencimentos em 2021 equivale a 28,8% do estoque de toda a dívida pública interna e já representa quase o dobro da média de resgates nos últimos três anos. Mesmo assim, a equipe econômica sempre diz estar bastante “tranquila” em relação ao refinanciamento da dívida.

Isenção do Imposto de Renda

A ampliação da isenção do IR é uma das promessas de campanha de Bolsonaro que nunca saíram do papel. Em 2019, o presidente chegou a retomar o assunto algumas vezes ao afirmar que a ampliação estava sendo estudada pelo governo. 

Atualmente, quem ganha até  R$ 1.903,98 mil por mês está isento de declarar o IR. A partir desse valor, os descontos são de 7,5, 15%, 22,5% ou 27,5% sobre o valor dos rendimentos. A última alíquota é aplicada para quem ganha acima de R$ 4.664,68. A última atualização na tabela foi feita em 2015.

Bolsonaro já chegou a dizer que gostaria de aumentar a isenção da tabela do IR para quem ganha até cinco salários mínimos até o final de seu mandato (hoje, R$ 5,5 mil). A ideia, contudo, já enfrentava resistência da equipe econômica ainda em 2019, quando as contas do governo não estavam afetadas pela crise do novo coronavírus. 

Na conversa com apoiadores nesta terça-feira, Bolsonaro também voltou a intensificar as críticas à mídia, que segundo ele realiza um "trabalho incessante de tentar desgastar" o governo. "Vão ter que me aguentar até o final de 2022, pode ter certeza aí", afirmou.

Bolsonaro retoma o expediente normal no Palácio do Planalto após 17 dias sem compromissos oficiais e dias de recesso divididos entre o litoral de Santa Catarina, em São Francisco do Sul, e no litoral de São Paulo, no Guarujá. 

A agenda pública desta terça inclui reuniões com os ministros Fábio Faria, das Comunicações, Fernando Azevedo, da Defesa, Braga Netto, da Casa Civil, e Pedro Cesar Nunes, ministro interino da Secretaria-Geral, além do presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães. De tarde, em meio às negociações de uma vacina contra a covid-19, Bolsonaro também fará uma visita técnica ao Ministério da Saúde.

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Adriana Fernandes
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Adriana Fernandes: O País quebrado de Jair Bolsonaro

Presidente disse que o Brasil está quebrado para justificar o fato de não ter cumprido uma promessa de campanha sempre cobrada por seus apoiadores: aumentar o limite da faixa de isenção do Imposto de Renda

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 14h01

Um presidente da República não deveria sair alardeando por aí que o país que ele mesmo governa está quebrado. Muito menos para servir de justificativa para o fato de não ter cumprido uma promessa de campanha sempre cobrada pelos seus apoiadores: aumentar o limite da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

Saiu-se logo com a resposta mais fácil: o Brasil quebrou. Mas a verdade é que o presidente não mexeu uma palha para abrir espaço para corrigir a tabela do IRPF. Pelo contrário, beneficiou setores específicos nesses dois anos de governo e atropelou a discussão de mudanças no campo tributário por disputas políticas. Também não ajudou na pauta de corte de gastos ineficientes.

O que vão achar os investidores que compram papéis de um governo do qual o seu próprio presidente diz que está quebrado? É natural que comecem a cobrar cada vez mais para comprar os títulos da dívida brasileira. 

Ou seja, pode custar mais dinheiro para os contribuintes que o presidente promete ajudar com a correção da tabela do IRPF.

A fala do presidente é irresponsável sob todos os aspectos. Mas é ainda mais perigosa no momento atual em que o Tesouro Nacional passou por meses de grande dificuldade para se financiar e tem pela frente um trabalho difícil para pagar uma montanha de dívida concentrada nos primeiros meses do ano e que já supera R$ 1,3 trilhão até o final de 2021.

A declaração é ainda mais inoportuna depois da revelação pelo Estadão de que o Brasil não honrou o pagamento da penúltima parcela de US$ 292 milhões para o aporte de capital no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), a instituição financeira criada pelos cinco países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). 

O prazo para a quitação da parcela terminou no último dia 3 de janeiro e o Brasil agora está inadimplente com o banco que ajudou a fundar e é um dos acionistas.

A equipe econômica não quer nem que se fale em calote com temor do estrago. Prefere dizer que é um atraso. No dicionário, porém, a definição de calote é: dívida não paga.

O sinal é ruim. Outros organismos multilaterais também não receberam, mas não há transparência nenhuma do Ministério da Economia para explicar o que aconteceu, qual o tamanho da dívida e a razão de ela não ter sido paga.

Depois da fala do presidente nesta terça-feira, 5, é melhor a equipe econômica agir rápido, fazer uma declaração oficial para afastar a desconfiança.

*É REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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