Giovane Rocha/Divulgação
Colheita de soja na Fazenda São Marcos, em Palmas, no Paraná. Chuvas regulares e abundantes favoreceram a produção na região Sul do País Giovane Rocha/Divulgação

Safra de soja deve bater novo recorde

Puxada pelo bom desempenho do Sul do País, produção pode crescer 11% em relação ao ano passado, atingindo 95,8 milhões de toneladas

Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2015 | 11h56

Marcada por contrastes pelo País, a safra 2014/15 de soja, carro-chefe das exportações brasileiras, deve registrar novo recorde e bater 95,8 milhões de toneladas, calcula a consultoria Agroconsult. O volume esperado, 11% superior ao do ano passado, será puxado pelo salto de produtividade da Região Sul, que, premiada neste ciclo por um clima extremamente favorável, deverá amenizar parte da perda causada por estiagem em alguns Estados.

“Esta é uma safra que, devido a um bom potencial da Região Sul, deve fechar com produtividade de 50 sacas por hectare”, diz Marcos Rubin, sócio da Agroconsult e um dos coordenadores do Rally da Safra, expedição anual da consultoria que avalia 97% da área de soja do País.

O Estado participou da sexta equipe da expedição e visitou dezenas de lavouras em mais de 30 cidades pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A região foi contemplada com chuvas abundantes e regulares desde o início do plantio, inclusive em regiões que haviam sofrido com veranico (seca) no ano passado, como o norte do Paraná e o norte do Rio Grande do Sul.

“Choveu todo dia, não tenho do que reclamar”, diz Marcelo Nunes, de 31 anos, que planta 145 hectares de soja em Passo Fundo (RS). “No ano passado, foram 45 dias de sol”, conta. O produtor Valdecir Luiz Delazeri, de Santo Antônio do Planalto, um pouco adiante, também enfrentou seca no ano passado, o que lhe rendeu uma média de 52 sacas por hectare. Neste ano, a perspectiva é diferente. “O clima foi ótimo, foi um ano espetacular. Choveu até demais, tem até gente reclamando”, diz. A expectativa dele era colher 70 sacas por hectare. “O vizinho colheu ontem e deu 72, não posso ficar para trás”, brinca.

O Rio Grande do Sul deve produzir 15 milhões de toneladas do grão nessa safra, com produtividade 13% superior ao ano passado. Esse número seria ainda maior, não fosse a alta incidência de ferrugem em alguns pontos de lavouras de ciclo médio e tardio no Estado. No trecho percorrido entre Santiago e Palmeiras das Missões, por exemplo, muitas lavouras ainda verdes, em fase de desenvolvimento, já se encontravam completamente infestadas pelo fungo, que ataca as folhas e impede o enchimento dos grãos.

Um dos afetados foi Carlos Leonardo Krunbauer, de 33 anos, produtor em Giruá (RS)com seu pai, irmão e sobrinho Mateus, que com apenas sete anos, já gosta de ajudar – e brincar – na lavoura e também quer ser agricultor. “A colheita está boa esse ano, mas poderia ser ainda melhor, porque tivemos problema com ferrugem na região”, diz.

Mesmo assim, ele deve fechar a safra com uma média alta, perto de 70 sacas por hectare. A produtividade veio do investimento, em parceria com uma cooperativa local, em agricultura de precisão – técnica que consiste na aplicação direcionada de insumos levando em conta as necessidades de cada ponto da lavoura. Na safra 2012/13, por exemplo, só havia colhido 50 sacas por hectare.

Já Mato Grosso, maior produtor de soja do País, apresentou chuvas irregulares em janeiro, o que gerou perda em algumas regiões. Mesmo assim, o Estado deve fechar o ciclo com o melhor resultado das três últimas safras, superando 28 milhões de toneladas. Nesta semana, a colheita chegou a 94% da área semeada no Estado, segundo o o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Uma seca prolongada no fim de dezembro e em janeiro também afetou regiões de Goiás, Minas Gerais, parte da Bahia e do Piauí – mas sem comprometer o alto potencial da safra, que pode levar o Brasil a ultrapassar a marca dos 200 milhões de toneladas de grãos. A estimativa da Agroconsult é de 202,9 milhões – acima dos 198,5 milhões projetados pela Conab. André Pessôa, sócio-diretor da consultoria, observa: “Se bater essa marca, o Brasil terá um boi e uma tonelada de grão para cada habitante.”

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Dólar segura renda no campo, mas encarece insumos

Se a queda das cotações de soja na Bolsa de Chicago, pressionadas pelo alto patamar dos estoques mundiais, afligiu produtores e ameaçou a rentabilidade desta e da próxima safra, a disparada do dólar no mês passado acalmou os ânimos e segurou a rentabilidade para o produtor – pelo menos por enquanto.</p>

O Estado de S. Paulo

28 de março de 2015 | 12h54

De agosto do ano passado a março deste ano, o câmbio rendeu mais de R$ 25 no preço da saca de soja em Sorriso, Mato Grosso, ficando responsável por quase metade de sua composição. “O preço em Chicago, o prêmio e a margem diminuíram, mas o dólar subiu bem e compensou essa queda”, diz Marcos Rubin. “Com isso, o preço da soja se manteve praticamente estável de agosto para cá.” 

Em outubro, essa estabilidade não era nem sequer cogitada pelo produtor, que estava apreensivo com o cenário de preços. Com o dólar a R$ 2,50 e a cotação de soja por volta de US$ 9 o bushel na Bolsa de Chicago, a rentabilidade esperada no norte de Mato Grosso, por exemplo, para a safra 2014/15 era de R$ 128 por hectare – 80% a menos do que na safra anterior. Para o ano que vem, a conta ficava no vermelho, com prejuízo de R$ 125 por hectare.

O dólar deu uma reviravolta nesse cenário. Em março, tomando como base uma cotação a R$ 3,10, a rentabilidade da soja foi para R$ 798 por hectare, superando a do ano passado. Para a nova safra, a conta sai do negativo e vai a R$ 337. No norte do Paraná, a rentabilidade passou de R$ 341 para R$ 1.077 por hectare com a valorização da moeda americana. “Ganhamos um ano com o câmbio, com uma margem melhor do que se estivéssemos olhando apenas para os mercados internacionais”, destaca André Pessôa.

Insumos. O mesmo dólar que segura a renda do produtor, porém, também traz preocupações para a próxima safra, uma vez que o Brasil importa por volta de US$ 30 bilhões em insumos por ano. A Agroconsult estima uma alta de 13% no custo de produção no norte de Mato Grosso para a safra 2015/16, e boa parte dessa conta sai em dólar. “No caso dos fertilizantes, o repasse é praticamente igual”, diz Pessôa. A consultoria projeta alta de 29% no preço de fertilizantes e 22% para os defensivos.

A perspectiva se agrava com incertezas quanto à oferta de crédito para a próxima, tanto de fontes públicas como privadas. A consultoria espera queda de 20% na disponibilidade de crédito aos agricultores. Na contrapartida, estima que serão necessários R$ 11 bilhões a mais de recursos para o plantio de soja, milho e algodão do que nesta safra, totalizando 94,8 bilhões. “Neste ciclo, notamos um retardamento tanto na comercialização da soja como na compra de insumos. O grande desafio deste ano é o crédito, que estará mais caro e mais escasso”, diz Pessôa.

Além das dúvidas em relação ao câmbio, o preço da soja em dólar deve continuar pressionado. “Tivemos uma safra boa nos Estados Unidos, na Argentina e no Brasil. As probabilidades de alta de preços são baixas”, diz Rubin. Os três principais produtores da commodity acumularão um estoque de 33 milhões de toneladas nesta safra, sendo 18 milhões na Argentina, que já havia armazenado 12 milhões na safra passada. “Não se sabe quando a Argentina vai colocar essa oferta no mercado, mas isso será decisivo para os preços.”

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Produtor continua investindo, mas com mais cautela

Segundo o levantamento da Agroconsult nesta edição do Rally da Safra, 36% dos produtores consultados disseram que aumentaram ou irão aumentar os investimentos em infraestrutura e 38%, em máquinas e equipamentos. Os números são inferiores aos observados na safra passada – 53% e 59%, respectivamente. No Sul, por exemplo, o produtor está capitalizado após uma sequência de resultados satisfatórios. No entanto, o baixo patamar de preços e as incertezas no cenário econômico levaram alguns a colocar o pé no freio.</p>

O Estado de S. Paulo

28 de março de 2015 | 13h10

 Outros, porém, resolveram continuar investindo. É o caso dos irmãos Adilson e Marcos Bordin, que tocam a Fazenda São Marcos, nomeada em homenagem a um irmão gêmeo de Mauro, que faleceu quando pequeno. A localização é privilegiada, bem como a vista: na divisa de Palmas (PR) e Água Doce (SC), de frente ao parque eólico de Palmas. Nesta safra, os irmãos, que também arrendam terras para turbinas do parque, compraram duas plantadeiras e dois tratores. “O que eu demorava três meses para plantar fiz em 18 dias”, conta Adilson.

Ao observarem suas três grandes colheitadeiras varrerem rapidamente a plantação (foto acima), uma dentre seus 1.200 hectares, os irmãos contam que esperam pelo menos 65 sacas por hectare. De família gaúcha, quando chegaram a Palmas, em 1999, encontraram só pastos. Criar gado, porém, nunca passou pela cabeça : “O nosso pai era agricultor e amava a terra. Não tem jeito, a soja está no sangue.”

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