Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Saiba mais sobre André Brandão, o escolhido de Guedes para presidir o Banco do Brasil

Executivo já aceitou convite, mas oficialização ainda depende de 'ritos' do BB; ele já prepara mudança de Nova York para o Brasil

Sonia Racy, Aline Bronzati e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2020 | 13h00

A ala "pragmática" do governo obteve uma vitória com a indicação de André Brandão, executivo atualmente no HSBC, para a presidência do Banco do Brasil, em substituição a Rubem Novaes, de 74 anos, que anunciou sua saída do cargo no início da semana passada. A escolha de Brandão foi antecipada na manhã de sexta-feira, 31, pela colunista Sonia Racy, do Estadão.

Com a  escolha de  um nome de mercado – Brandão tem 17 anos de HSBC e mais de uma década de Citibank –, o consenso é de que o nome reforça o cacife do ministro da Economia, Paulo Guedes, que conseguiu impedir que um perfil menos técnico fosse selecionado.

Novaes pediu demissão em meio a um processo de desgaste que incluía insatisfação do governo com a velocidade das vendas de ativos do BB e com o desempenho da instituição no crédito, segundo fontes. 

Além disso, causou mal estar a reação do presidente do BB ao questionar a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de impedir que o banco faça propaganda em sites acusados de espalhar fake news, prática associada à ala ideológica do governo.

Depois de pedir demissão, o executivo também causou polêmica ao declarar que não se adaptou à cultura de “compadrio” e “corrupção” de Brasília. Disse também que o BB precisava de sangue novo para fazer frente a desafios tecnológicos.

A confirmação da troca de comando depende de ritos internos do BB e do governo. Uma das tarefas de Brandão, segundo fontes, seria vender as ações que detém no HSBC antes de começar a trabalhar no banco público. Ele deve fazer isso em breve, pois já aceitou a nova função. Já está até aprontando a mudança de Nova York para o Brasil, inclusive buscando escolas para os filhos.

Executivo tem currículo longo e já depôs em CPI

Desde 2003 no HSBC, André Brandão atuava como chefe global da instituição para as Américas.  Desde que vendeu o banco de varejo para o Bradesco, em 2016, o HSBC atua no Brasil apenas como banco de investimento – área chamada de "atacado" no jargão do mercado. Antes de chegar ao HSBC, o executivo permaneceu mais de dez anos no Citibank (outra instituição que, recentemente, saiu do segmento de varejo no País, que foi adquirida pelo Itaú Unibanco).

Em 2015, o executivo depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava supostos crimes de evasão de divisas de brasileiros que tinham contas na agência de Genebra, na Suíça, do banco.  Na época, ele negou que a instituição brasileira tivesse acesso a dados dos correntistas fora do País.

Cortes no HSBC e salário menor

Brandão enfrentava, no HSBC, um movimento de redução de cargos executivos. Segundo reportagem da Reuters publicada no mês de abril, ele permaneceria no cargo de dirigente para as Américas, em Nova York, até o fim do ano, quando "novos anúncios seriam feitos". Outros diretores regionais do banco foram demitidos desde o início de 2020.

Com as dificuldades e os cortes atualmente ocorrendo no HSBC, o cargo no BB é uma forma de o executivo colocar uma experiência de peso no currículo, segundo fontes de mercado. Essa razão justificaria trocar o cargo atual, com remuneração em dólar, pela presidência do BB, cujo salário fixo mensal é de R$ 68,8 mil. É um valor considerado baixo no mercado. Nos bancos privados, o valor fixo é pelo menos o dobro.

Tanto é assim que o nome de Brandão surgiu após uma série de negativas recebidas pela equipe econômica, em sondagens para o cargo. Sob o temor de uso do cargo para atender a interesses políticos, Guedes fincou o pé em relação à decisão de trazer um executivo de mercado.

Fontes do mercado financeiro consultadas pelo Estadão disseram que Brandão é um visto como um respeitado executivo de mercado e que sua indicação para o Banco do Brasil manda uma mensagem positiva em termos de gestão. "É uma boa escolha diante dos nomes disponíveis", disse uma fonte.

Se o mercado aceita bem o executivo, para um integrante da equipe econômica, o nome do diretor do HSBC não é o melhor indicado. "André Brandão é um nome respeitável, mas não vejo sabedoria política em se colocar agora o presidente de um banco estrangeiro à frente do BB como estratégia para uma privatização futura", disse a fonte.

Venda de ativos

Embora não seja um "banqueiro de varejo raiz", André Brandão, poderia agilizar a agenda de venda de ativos do Banco do Brasil, segundo fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast, que é uma das agendas prioritárias para a equipe econômica atualmente. 

"Brandão é o verdadeiro 'lorde inglês'. Tem experiência em atacado e pode ajudar na venda de ativos. Também tem postura e expertise para lidar com grandes clientes e receber investidores", disse um banqueiro, na condição de anonimato.

Em relação à venda de ativos do BB, algumas agendas já andaram, como a venda de ações de IRB Brasil Re e Neoenergia, o início da parceria com o UBS em banco de investimento e a abertura de capital do BV (ex-Banco Votorantim). Mesmo assim, a gestão de Novaes teria deixado a desejar, apesar de sua gestão ter sido atropelada pela pandemia, que paralisou as negociações em curso.

Brandão também pode ajudar nas conversas com o Bradesco, que tem uma série de sociedades com o BB. O executivo selou a venda do HSBC para o banco e ainda participou da fase de transição. Neste momento, BB e Bradesco discutem sobre as empresas que têm em conjunto em diversas áreas, principalmente em meios de pagamentos. Entre elas, a Cielo, que deu o primeiro prejuízo trimestral de sua história, impactada pela pandemia e ainda a pressão concorrencial.

Além dos desinvestimentos, o BB, assim como seus rivais, também sofre pressão em relação à evolução tecnológica que está transformando o setor com a chegada de fintechs. O próprio Rubem Novaes, conhecendo o desafio, vinha defendendo como o perfil necessário de um jovem, dinâmico e com "pegada tecnológica".

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