Saída da crise ou não?

As manhãs têm sido agradáveis nesta época. A cada dia, os jornais anunciam que a crise acabou: presidentes, ministros, grandes empresários, estão todos de acordo. E como não gostamos de contradizer pessoas ilustres, como gostamos mais da esperança que da tristeza, nós também dizemos que a crise acabou.

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

No entanto, há uma lembrança que nos inquieta: há um ano, nem um único desses profetas notou a chegada da catástrofe. Foi só depois que a granada explodiu que eles nos preveniram delicadamente: "Uma granada explodiu." A rainha da Inglaterra concorda comigo. E como ela tem mais autoridade que eu, soltou o verbo. No fim de 2008, ela perguntou à London School of Economics: "Como foi que ninguém a previu?" Os professores se entreolharam. A pergunta os pegava de surpresa e eles prometeram refletir.

E refletiram. Seis meses depois, a resposta acaba de chegar no Palácio de Buckingham: "Foi sobretudo um revés da imaginação coletiva de numerosas pessoas brilhantes, neste país e no exterior..." Como não concordar com uma resposta tão fulgurante? Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2008, foi mais explícito: "A macroeconomia foi na melhor hipótese inútil e na pior absolutamente nefasta."

Um professor francês de direito, inquirido num programa de TV, respondeu: "Nenhum de nós, os entendidos, viu o golpe. Com vocês querem que lhes digam quando vamos sair de uma crise na qual eu nem percebi que havíamos entrado?" Essas confissões são confortadoras. Elas mostram que os especialistas, mesmo quando são nulos, reconhecem gentilmente sua estupidez. Mas o que vai ser de nós, os ignorantes? Se as bússolas confessam que se enganaram, que confundiram o norte, o sul, o leste e o oeste, como nós vamos sair do labirinto? Lancemos um olhar sobre as previsões de saída da crise que se acumulam em nossos jornais. Quando se lê com um pouco de atenção todos esses profetas, percebe-se que a crise lhes ensinou ao menos uma coisa: a modéstia. Eles agora manejam a dúvida, a nuance, a flexibilidade, a má fé e a habilidade. Sim, nós estamos saindo da crise, mas em que situação nos encontramos? Caolhos, pernetas ou paralisados? E como será essa saída da crise? O jornal The Washington Post confirmou que a crise terminou. O chato é que esse fim da crise não acarretará em nenhuma melhoria nos salários e nem um único emprego suplementar. "Será uma retomada que só os estatísticos perceberão." O Courrier International confirma: "A crise terminou, mas as populações não verão sua sorte melhorar." Que pena! Para que tanto trabalho para sair da crise se as coisas vão continuar tão ruins como estavam? Existe ao menos uma certeza sobre a qual todos os especialistas estão de acordo: a saída da crise será, ou bem rápida, ou bem lenta, ou bem entre as duas coisas, isso é líquido e certo. Para nos ajudar a ver claro, eles exibem, há alguns dias, como se tivessem combinado a palavra nos quatro cantos do planeta, um esquema emprestado do alfabeto. A saída da crise será ou em V, ou em U, ou em W.

Explicando: se sairmos em V, a retomada será vigorosa. Se for o itinerário em U, a saída será penosa, mas inelutável. O modelo em W é bem mais triste. Ele sugere que nós vamos nos recuperar rapidamente, mas que, assim que chegarmos ao ar livre, cairemos num segundo buraco de ar e despencaremos de novo no abismo, antes de retomar nossa lenta escalada um pouco depois, mas em quanto tempo? Alguns economistas completaram sua pequena coleção de esquemas. Eles acrescentaram uma outra letra às três precedentes. Imaginaram uma saída da crise em L. Essa perspectiva não é nada alentadora. Esse L quer dizer que a queda para, mas não haverá retomada. Entraremos num período de estabilidade em um nível inferior ao que existia antes da crise.

Se eu fosse a rainha da Inglaterra, faria outra pergunta aos economistas da London School of Economics. Mas como não sou, não farei nada. Não quero passar por impertinente.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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