José Patrício/ Estadão
José Patrício/ Estadão

Saída de dólares do País chega a US$ 44,8 bilhões em 2019, a maior da história

Montante leva em conta tanto as operações financeiras quanto as comerciais do Brasil com outros países

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 16h20

BRASÍLIA - Em um ambiente marcado pela economia ainda lenta e pelas baixas taxas de juros, US$ 44,8 bilhões deixaram o Brasil em 2019. O valor, divulgado nesta quarta-feira, 8, pelo Banco Central é o maior da história, superando de longe os US$ 16,182 bilhões que saíram do País em 1999.

O montante leva em conta tanto as operações financeiras quanto as comerciais do Brasil com outros países.

Pela via financeira, US$ 62,2 bilhões deixaram o Brasil no ano passado. O resultado inclui investimentos produtivos e aportes em carteira – como os realizados em ações da Bolsa de Valores ou em títulos públicos –, além de remessas de lucros e pagamentos de juros feitos por multinacionais, entre outras operações.   

O fato de a Selic, a taxa básica de juros, renovar em 2019 os menores níveis da história foi um dos fatores para a saída de dólares do Brasil pela via financeira. Isso porque a taxa básica – hoje em 4,50% ao ano – deixou de ser tão atrativa como no passado para os investidores estrangeiros interessados em renda fixa. Em seu pico histórico, em outubro de 1997, a Selic chegou aos 43,41% ao ano.

O juro baixo também estimulou as remessas de dólares feitas por multinacionais ao exterior. A partir do segundo semestre de 2019, intensificou-se um movimento de pagamento, por algumas companhias, de dívidas em outros países. Esse processo foi liderado pela Petrobrás, mas outras multinacionais seguiram no mesmo caminho.  

Em muitos casos, como a diferença entre a Selic e a Libor, taxa de juros de referência no exterior, diminuiu, essas empresas optaram por quitar os compromissos em outros países e fazer novas dívidas no Brasil, em condições mais vantajosas.

Essa quitação de compromissos levou à saída de dólares do Brasil. Foi o que o BC qualificou como “pré-pagamento” de dívidas, levando a autarquia a promover leilões de dólares de suas reservas para atender à demanda das empresas por moeda estrangeira.

A saída de US$ 62,2 bilhões pela via financeira em 2019 também foi a maior da história, superando os US$ 52,3 bilhões registrados em 2017.

Ao tratar dos fluxos de moeda no fim do ano passado, durante entrevista à imprensa, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ponderou que o País passa por uma transição. “O Brasil está saindo de um período no qual os investidores ganharam muito dinheiro com juros e agora passarão a investir na economia real. A diferença é que o dinheiro aplicado em juros sai rápido, e os recursos a serem aplicados em investimentos de infraestrutura entram mais devagar. Estamos passando por esse vale", afirmou na ocasião.

Comercial

A saída de dólares só não foi maior em 2019 porque houve entrada de moeda estrangeira pela via comercial, que reflete as exportações e as importações do País. Os dados do BC mostram que no ano passado o Brasil registrou fluxo positivo de US$ 17,5 bilhões nesta área. O montante foi gerado por exportações no valor de US$ 196,4 bilhões, menos as importações de US$ 178,9 bilhões.

O resultado comercial de 2019, no entanto, ficou abaixo do verificado no ano anterior, quando esta conta indicou entrada de US$ 47,7 bilhões no Brasil. Na prática, o Brasil exportou menos em 2019 e importou mais.

Entre os fatores que justificam a queda nas exportações estão a redução dos embarques de produtos para a Argentina, em função da crise econômica no país vizinho, e a queda das vendas de soja para a China, que enfrentou um surto de peste suína.

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