FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

Saída de Esteves não traz alívio ao BTG

Apesar de executivo deixar bloco de controle, banco teve nota de crédito rebaixada, ações caíram e títulos no exterior atingiram grau especulativo

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2015 | 22h00

A mudança anunciada nesta quarta-feira, 2, pelo BTG Pactual, com a saída de André Esteves do bloco de controle do banco, não foi suficiente conter a crise instalada na instituição financeira, iniciada no dia 25 de novembro com a prisão do banqueiro. Esteves foi preso sob suspeita de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobrás.

Os principais indicadores financeiros do BTG não reverteram as expectativas com a reestruturação anunciada pelo BTG. As units (pacote de ativos) do banco fecharam em queda de 1.48%, cotadas a R$ 20 – em uma semana,perderam 35%.

As agências de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P), Fitch e Moody’s afirmam que a liquidez do banco está pressionada pelas retiradas dos últimos dias. A S&P rebaixou o rating (nota) de longo prazo em moeda estrangeira do BTG de BB para BB- e o de longo prazo em escala nacional de brAA- para brA. As perspectivas para a nota do banco são, segundo a agência, negativas.

Na avaliação da S&P, a posição financeira do banco depende da venda de ativos ou da ajuda de órgãos reguladores do sistema bancário. A agência acredita que o BTG pode ter difuculdade de cumprir obrigações de curto prazo.

A Fitch, que na semana passada colocou as notas do banco em observação para possível rebaixamento, informou hoje que monitora diariamente o BTG. Na terça-feira, a Moody’s já tinha anunciado a retirada do grau de investimento do banco.

Em uma semana, o valor de mercado do BTG encolheu em R$ 10,2 bilhões, de acordo com levantamento da consultoria financeira Economática. Para chegar à cifra, a Economática levou em conta o total de ações do banco BTG e de sua empresa de participações (incluindo os papéis não negociados na Bovespa), com a atribuição do valor das units negociadas na Bolsa paulista.

No exterior, os bônus do BTG com vencimento em 2022 já operam em níveis que embutem percepção de calote na dívida. Os bônus 2022 foram cotados a 42% do valor de face, 2,5% abaixo da cotação de ontem e 31% abaixo do nível de segunda-feira.

Controle. Na tentativa de tentar conter a fuga de capital e recuperar a confiança do investidor, o BTG anunciou que Esteves saiu do bloco de controle do grupo, passando o comando societário para os sócios Marcelo Kalim, Roberto Sallouti, Persio Arida, Antonio Carlos Canto Porto Filho, James Marcos de Oliveira, Renato Monteiro dos Santos e Guilherme da Costa Paes, que, juntos, formam o grupo chamado de “Top Seven Partners”.

O presidente do conselho de administração do banco, Persio Arida, afirmou ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que a mudança de controle foi automática e não passou pelo crivo de Esteves, ex-presidente do banco. “Na holding dos sócios tem um acordo de acionistas que prevê que, no caso de o controlador, por algum motivo, não estar mais em condição de diligência, automaticamente é substituído pelos sete maiores sócios”, explicou.

Na prática, no entanto, Esteves continua com a mesma participação que detinha antes da permuta de ações (de 28,4%), mas perdeu o poder de voto, que passou a ser dos sete maiores sócios.

Esteves teve seus papéis ordinários (ON) e preferenciais classe A (PNA) convertidos em ações preferenciais classe B (PNB), sem direito a voto. Permaneceu, contudo, na holding dos sócios. “Como não tem poder de voto na holding dos sócios, (Esteves) não pode tem nenhuma ingerência na holding do banco”, disse Arida.

Para Herbert Steinberg, sócio da Mesa Corporate, consultoria em governança corporativa, a mudança do bloco de controle não altera a visão do mercado sobre o BTG. “O banco retirou Esteves do controle na tentativa de isolar o problema, mas a credibilidade já está comprometida. Os sete executivos são competentes e têm reputação, mas Esteves continua sendo o nome por trás do BTG.”

Para um advogado do setor corporativo consultado pelo Estado, a mudança não oferece garantia de que o banqueiro não tenha influência indireta na instituição.

Fuga de capital. Nos últimos dias, bancos de investimento concorrentes têm sido procurados por cotistas do BTG para transferir recursos, apurou a reportagem. Estimativa do site Fortuna indica que, até 30 de novembro, houve resgate de quase R$ 9 bilhões no banco. / ALINE BRONZATI, CYNTHIA DEOCLEDT, FERNANDA GUIMARÃES, FERNANDO SCHELLER e MÔNICA SCARAMUZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.