Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'Saída do Brasil da recessão deve ser muito lenta', diz Regis Bonelli

Para pesquisador, vai ser difícil recuperar investimento com o alto nível de capacidade ociosa da indústria

Entrevista com

Regis Bonelli

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Luiz Guilherme Gerbelli

Para o pesquisador Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o Brasil não tem um caminho fácil pela frente. Na avaliação dele, a economia brasileira deve sair da recessão crescendo a taxas muito baixas. Enquanto alguns economistas já preveem um crescimento econômico próximo de 2% em 2017, o Ibre prevê uma estagnação. “Nós vemos uma saída da recessão, provavelmente, no fim deste ano, mas a taxas muito, muito baixas”, afirma.

Na semana passada, Bonelli lançou o livro A Crise de Crescimento do Brasil, em parceria com Fernando Veloso, também do Ibre. São artigos - também de outros economistas convidados - organizados pela dupla para discutir a economia brasileira. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado.

As projeções do Ibre estão mais pessimistas. Qual é a análise do quadro atual?

Prevemos uma saída da recessão, mas muito lenta. Os vetores de crescimento como investimento e infraestrutura e a contribuição do setor externo não parecem até o momento ter um futuro muito brilhante.

Por que o futuro não parece bom?

Enquanto houver muita capacidade ociosa, o investimento demora para recuperar. A indústria, que é o caso mais claro, não tem estoques tão altos, mas ainda há muita capacidade ociosa. O investimento em infraestrutura ainda é uma incógnita. Aparentemente, o governo está conseguindo avançar nas concessões e privatizações, mas não será um resultado imediato. E, por enquanto, os programas estão bastante tímidos.

Nem o setor externo pode puxar a economia brasileira? 

No ano passado, a contribuição foi muito boa. Em 2016, a gente acha que a contribuição deve ser menor, porque as exportações, embora possam estar se recuperando, não serão notáveis em termos de quantidade. E, se a economia se estabilizar - como a gente acredita neste segundo semestre - a tendência é que retome um pouco das importações. O nosso cenário está bastante ajustado. Nós vemos uma saída da recessão, provavelmente, no fim deste ano, mas a taxas muito, muito baixas.

Só a melhora recente das expectativas não é suficiente para a retomada da economia?

As expectativas estão melhorando, mas muito lentamente. Você olha as respostas e vê alguma coisa um pouco melhor, mas ainda patinando no fundo do poço. Isso, entre os empresários. Porque, no caso dos consumidores, não é assim. A situação ainda está ruim, com uma incerteza muito alta. A nossa previsão é de que o desemprego passe de 11% e aumente no ano que vem. Além disso, as famílias ainda estão digerindo um ciclo de endividamento. 

Com o sr. analisa o início da equipe econômica?

Acho que está na direção certa. É uma equipe profissional. Não gosto de comparações de qualidade de equipe. Eu certamente acho que essa, pelo diagnóstico que tem feito, mostra que conhece a gravidade da situação. Tem uma visão de mundo, um propósito de uma direção. Mas é uma tarefa muito difícil. A gente acompanha no noticiário a dificuldade que (a equipe) tem para passar (as medidas) politicamente. 

O debate sobre a produtividade tem permeado as discussão econômicas nas últimas décadas. Quais avanços o livro trouxe para essa discussão? 

Avançamos muito. No meu artigo, por exemplo, mostro a má utilização do estoque de capital que vem ocorrendo por causa de obras paralisadas, malfeitas, obras pela metade. Isso faz com que o investimento feito não tenha gerado produto. O estoque de capital está cada vez mais ineficiente. No Maranhão, gastou-se mais de um R$ 1 bilhão de terraplenagem e a obra foi interrompida. O que é isso? É gasto de capital fixo, investimento, que não gera produto. A refinaria Comperj, no Rio, é um escândalo, porque consumiu uma quantidade imensa de investimento, mas não gerou produto nenhum. 

Isso coloca o Brasil para trás num cenário já complicado... 

O que se nota também, em mais um artigo, é que está acabando a fase da transição do bônus demográfico. Então, olhando para frente, não vai ter mão de obra. Ou seja, o ônus que estamos colocando sobre a produtividade é maior ainda. Se a produtividade não crescer muito rápido, o País não vai crescer, porque não vai ter como incorporar trabalho à produção. 

Qual pode ser a consequência desse problema?

Tem muita gente pensando em esquemas de imigração em larga escala, mas a quantidade de gente que seria necessária para complementar o trabalhador brasileiro em termos de imigrantes é um número da classe do milhão. E a gente não tem institucionalidade para receber isso. O Brasil recebe 10 mil imigrantes por ano, se muito, com todas as dificuldades. Imagina receber 1 milhão? O problema é que não estamos vendo acontecer e não tem sinal visível. 

Não há perspectiva positiva no curto prazo, então? 

Tudo isso afeta o produto potencial. Tem pelo menos dois artigos no livro que tocam nessa questão. O Edmar Bacha, na introdução, menciona isso. No começo da década, pensávamos num potencial de crescimento da ordem de 4%. Agora a gente fala em 2%, 2,5%. Para um país como o Brasil, com o nível de pobreza e desigualdade, baixos níveis de bem-estar, 2% ao ano é uma coisa claramente insuficiente. Não vai nos colocar próximos de países com nível de bem-estar minimamente aceitáveis. Sem contar a questão de desigualdade. Melhorou um pouco, mas certamente não conseguimos resolver.

Em qual momento o Brasil perdeu o passo da produtividade? 

O Brasil tem uma descontinuidade desde 1980. Isso aí todo mundo já identificou. Agora, mais recentemente, duas coisas chamam mais a atenção. Na indústria, a produtividade está caindo desde 1997, ou seja, há quase 20 anos. Nesse período, em apenas cinco anos a produtividade aumentou. O outro ponto é na economia como um todo. O Brasil teve ganhos muito grandes de produtividade na época da bonança externa, no boom de commodities, entre 2003 e 2011. Mas, no primeiro governo Dilma, a produtividade despencou, porque os ventos externos começaram a soprar contra.

De quanto deve ser queda da produtividade no Brasil?

No ano passado, por exemplo, a economia brasileira caiu 3,8%. Segundo a Pnad Contínua, o nível de ocupação da mão de obra foi em 2015 o mesmo de 2014. Independentemente da composição (da mão de obra), o emprego foi o mesmo e o produto caiu 3,8%. Então, só no ano de 2015, a produtividade recuou 3,8%. Neste ano, a nossa estimativa é que cai próximo disso. O Brasil está andando para trás. Existem estudos mais quantitativos que mostram que há uma fronteira mundial de produtividade e tecnologia, que é a americana. Na década de 1980, o Brasil chegou a ter 40% da produtividade americana; atualmente, tem menos de um quinto. A gente vai se afastando da fronteira mundial.

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