Claudio Belli - 30/05/2021
Claudio Belli - 30/05/2021

'Sairemos da pandemia com nova visão do País', diz presidente do Instituto Locomotiva

A solidariedade aumentou, ampla maioria quer se vacinar e ONGs já dialogam com doadores ricos, diz Renato Meirelles

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 05h00

A demora das vacinas, o avanço das fake news e a desigualdade social do País no último ano e meio de pandemia tornaram desafiador o cenário brasileiro dos próximos tempos – mortes e custos à parte. E o Instituto Locomotiva, do professor Renato Meirelles*, fez nesse período mais de 50 pesquisas para entender essa realidade – tarefa na qual sua equipe “descobriu” um pouco de tudo. Por exemplo, que pelo menos 11 milhões de brasileiros “não têm certeza” de que a Terra é redonda. E chegam a 25 milhões os que temem que a vacina anticovid possa fazer alterações no seu DNA e passar informações suas para alguma potência estrangeira.

Mas houve também coisas boas, ressalta Meirelles – a começar pela competência do Sistema Único de Saúde. “O SUS transportou vacinas de barco a unidades de saúde longínquas, instaladas em palafitas, pelo interior do Brasil.” Outra: ficou claro que a ampla maioria da sociedade quer, sim, se vacinar. Terceiro, algo que Meirelles afirma nunca ter visto antes em seus 20 anos de pesquisas focadas mais nas classes C, D e E: o contato direto entre líderes comunitários de instituições como a Central Única das Favelas (Cufa) e a Gerando Falcões e doadores ricos, pela internet, para definir e direcionar doações. “Foi o crescimento da solidariedade, o sentimento de que as soluções são coletivas, não individuais”, ressalta o pesquisador. 

De tudo isso, ele diz nesta entrevista a Cenários perceber razões para otimismo: “Acredito que sairemos da pandemia com nova visão, um novo jeito de enxergar o Brasil”. A seguir, trechos da conversa. 

Vocês fizeram, no Instituto Locomotiva, uma ampla pesquisa sobre vacinação no Brasil. O que descobriram?

Fizemos mais de 50 pesquisas durante a pandemia. E talvez a maior delas seja a parceria com a Unidos Pela Vacina, movimento liderado pela Luiza Trajano. E o destaque, a meu ver, foi a reafirmação de que o SUS, Sistema Único de Saúde, é algo que não existe em lugar nenhum do mundo. Víamos gente levando caixas de vacinas de barco, a postos de saúde em casas de palafita. Mas vimos também que 19% das cidades não têm internet nas unidades de saúde, as UBSs.

O que isso tem a ver com a vacina?

Tem a ver com o cadastramento dessas pessoas. É preciso cadastrar quem já teve a primeira dose, a segunda. E muitos postos, sem internet, não cumprem essa meta. 

O que mais chamou a atenção de vocês? Gente que rejeita a vacina?

Há alguns dados assustadores. Essa pesquisa com a Unidos pela Vacina, a maior já feita com gestores de saúde, revelou sérios problemas de infraestrutura. Um deles é a impossibilidade de fazer um calendário amplo de vacinação. Como demoramos para ter vacina, ela chega aos poucos, não tem como organizar um calendário amplo. E isso dificultou o entendimento pela população sobre quando é a vez de cada um se vacinar. Outro problema foi o crescimento das fake news, que questionavam a importância da vacina. Mais de 25 milhões de brasileiros adultos acreditam que, se a tomarem, terão um chip implantado no seu corpo ou sofrerão algum tipo de alteração em seu DNA.

Medo de virar jacaré?

É quase virar jacaré. E quando perguntamos a essas pessoas se receberam algumas fake news sobre vacina, elas disseram que não.  Ou seja, não perceberam que aquilo era informação falsa. Diziam que a vacinação era para escanear seus dados e os oferecer a alguma potência internacional. 

E os extraterrestres?  Perguntaram também sobre isso?

Não. Mas havia uma pergunta sobre se a Terra é plana ou redonda. E 11 milhões de brasileiros afirmaram que não têm certeza se a Terra é redonda e desconfiam que ela é plana. O que temos aí, então, é uma desconfiança sobre verdade factual. E, quando não temos uma base mínima para fazer um debate, fica difícil até a manutenção da saúde pública. E o risco disso, somado à não realização do censo do IBGE, é muito grande. Ficarão comprometidas as políticas públicas, que são construídas com base em evidências.

É chocante a informação sobre esses 11 milhões. Essa dúvida já existia antes nas redes sociais?

O que havia antes era um grande consenso sobre as vacinas. O Zé Gotinha era um herói nacional. Esse questionamento todo veio com as redes, as fake news e a polarização política. O que essas redes fazem? Formam grupos que são homogêneos entre si. Então, uma pessoa de São Paulo que não acredita que a Terra é redonda  se conecta com outra que acha isso lá no interior da Bahia

E a crença se fortalece.

Sim. Desse modo, se formam grandes conglomerados de pensamento e essa “informação” vai retroalimentar as redes. E, aí, você junta isso tudo com gente acreditando em fake news sobre vacina,  sobre urna eletrônica, sobre a Terra plana. Isso tem consequências muito sérias.

Como entender qual o intuito da pessoa que cria essas coisas e da que as repassa adiante?

No  Instituto Locomotiva, eu e meu sócio Álvaro Machado Dias temos nos debruçado para entender se os negacionistas são todos iguais. Descobrimos que há dois tipos. Um é o negacionista intencional, que propaga mentiras sabendo que são mentiras. Para gerar descrédito nas instituições. O outro tipo é o que chamamos de negacionista inconsciente, que tem uma visão quase infantil sobre a verdade factual. Essas pessoas têm medo de uma verdade que não bate com sua visão de mundo. E, na prática, os negacionistas do primeiro grupo influenciam o negacionismo do segundo. E vão minando a credibilidade nas instituições. 

Como as pessoas mais conscientes e informadas podem ajudar?

A lógica da polarização não é buscar o consenso, a verdade dos fatos, é simplesmente destruir a opinião adversária. Aí, os que acreditam na ciência muitas vezes ficam irritados e respondem desqualificando os negacionistas, quando a posição correta seria buscar exemplos que desmontem o argumento deles. 

Numa entrevista recente, o infectologista Esper Kallas nos disse uma coisa sobre gente que sai às ruas sem máscaras: ‘Eu tenho muito medo de gente que não tem medo’.

Concordo plenamente. Até porque, quem não tem medo, em geral tem uma patologia social relacionada à empatia. Há alguns fatores que apareceram em nossas pesquisas que explicam o negacionismo. O primeiro é que a pandemia é algo novo – a própria ciência foi mudando seu entendimento sobre ela. O outro aspecto é a profunda desigualdade que temos no Brasil. Não é  à toa que o índice de contaminação das áreas mais pobres das grandes cidades é três vezes maior do que o das áreas nobres.

E por que isso acontece?

É que as pessoas que entregam mercadorias para os que estão em home office moram na periferia. E a concentração demográfica nessas áreas é muito maior. Foram esses moradores de favelas e periferias que fizeram o País continuar andando. Entregadores, motoristas de ônibus, os servidores da limpeza. A meu ver, esses profissionais mereceriam ser priorizados na vacinação.  

A iniciativa privada, pelo que se vê, acordou de alguma maneira para essa desigualdade, né? Vejo muita gente ajudando. As pesquisas revelam algo sobre isso?

Fizemos pesquisas sobre doações, sim, e vimos coisas interessantes. Primeiro, que a maior participação da iniciativa privada se deu em momentos nos quais o Estado faltou. Ela se uniu a grandes organizações do terceiro setor, como a Cufa (Central Única de Favelas), a Gerando Falcões. Só a Cufa está presente em mais de 3 mil cidades. E esse pessoal fez chegar a ajuda a quem precisava. O segundo foi o movimento Panela Cheia

Vocês trabalham também com o Data Favela, né?

Sim, é uma parceria do Locomotiva com a Central Única das Favelas, voltada para mais de 16 milhões de pessoas. Essas pesquisas revelam que a fome está presente entre 68% dos moradores de favelas – gente que não teve dinheiro para comprar comida, pelo menos uma vez, na segunda quinzena de maio. A pesquisa revela também que o maior uso que esses moradores de favela fazem da ajuda recebida é repassar parte dela a vizinhos, parentes e amigos. Não por acaso, o número de pessoas que doaram, na baixa renda, é maior do que o das que doaram nas altas rendas. Não quanto ao valor, mas em número de pessoas. E ocorreu algo que nunca vi em 20 anos com pesquisa: líderes comunitários fazendo contatos com as pessoas mais ricas do País. Estas entenderam que salvariam vidas ouvindo diretamente essas lideranças sociais. 

E em termos de economia, que tipo de pesquisa vocês fizeram?

Vimos que é preciso tomar cuidado com a euforia dos últimos números do PIB. Eles são fortemente impulsionados pelas commodities, mas não pelo consumo das famílias. Eu sou otimista com o crescimento da economia, mas não com a velocidade com que ele chegará ao bolso dos que mais precisam. Olha este dado: 15% dos estudantes de classes A e B pararam de estudar por causa da pandemia. E, entre estudantes das favelas, 50%.  Ou seja, o gap educacional, que já é grande, tende a crescer mais.

No meio desses dados todos, que horizontes você vê para o País?

Encontramos notícias positivas. Por exemplo, um crescimento da rede de solidariedade como não se via desde a campanha da fome do Betinho. Outra coisa: não tenho dúvida nenhuma de que quem defende a vida, as vacinas, é a ampla maioria da sociedade brasileira. E que sairemos dessa pandemia com uma nova visão, um novo jeito de enxergar o Brasil. 

*QUEM É: FORMADO NA ESPM, RENATO MEIRELLES É PROFESSOR DE CIÊNCIAS DO CONSUMO DO IBMEC. CRIOU O DATA POPULAR, VOLTADO PARA PESQUISAS NAS CLASSES C, D E E; AUTOR DO LIVRO UM PAÍS CHAMADO FAVELA.

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