Salário e gênero em questão

Políticos olham na direção errada ao abordar as diferenças na remuneração de homens e mulheres

The Economist

21 de novembro de 2015 | 02h03

Se há um tema que este ano vem merecendo a atenção de praticamente todos os pré-candidatos democratas à Presidência dos Estados Unidos é o do desequilíbrio salarial entre homens e mulheres. A estatística mais citada é a de que as americanas recebem apenas 77 centavos para cada dólar pago a seus colegas do sexo oposto, donde se costuma inferir que essa assimetria de 23% é resultado de discriminação.

Embora os dados estejam corretos, sua interpretação exige alguma nuance: pelo menos parte das desigualdades salariais entre homens e mulheres pode ser explicada por diferenças em fatores como número de horas trabalhadas ou tipo de carreira seguido.

Pesquisas indicam que, no tocante à remuneração, a maior parte do desequilíbrio de gênero é fruto de disparidades salariais observadas no interior de uma mesma profissão, e não entre profissões diferentes. O que não é tão fácil de determinar é se as mulheres ganham menos pelo "mesmo trabalho": os estudos da área geralmente usam dados do Censo e do Departamento de Estatística do Trabalho do governo americano, que são confiáveis, mas não oferecem detalhes sobre ocupações específicas.

Por exemplo, no American Community Survey, uma das bases de dados mais utilizadas, todos os tipos de médicos figuram na categoria "médicos e cirurgiões", o que é problemático, pois a remuneração desses profissionais varia muito de especialidade para especialidade.

Novo relatório divulgado pelo site de empregos PayScale tenta lidar com esse problema ao examinar as disparidades salariais de gênero presentes em diversas ocupações, controlando-as por fatores como, experiência profissional, escolaridade, porte da empresa e, o que é fundamental, designação profissional. Segundo o relatório, a remuneração das médicas é 29,2% inferior à de seus colegas do sexo masculino, mas esse porcentual cai para apenas 4,6% com a introdução das variáveis de controle. Isso ocorre porque a pediatria é uma das especialidades mais comuns entre as mulheres, ao passo que entre os homens é maior o número de cirurgiões, cuja remuneração é mais alta.

Direito. Padrão semelhante se observa na advocacia: as mulheres ganham 14,8% menos que os homens, mas a diferença cai para 4,1% depois de ajustada. Mais uma vez, observam-se diferenças nos tipos de atividades preferidas por homens e mulheres: 8,7% das advogadas trabalham em organizações sem fins lucrativos; uma área que só atrai 4,5% dos advogados. Quando se considera o conjunto das profissões estudadas, a disparidade salarial de gênero chega a 25,6% antes da inclusão das variáveis de controle; mas se reduz a 2,7% depois que elas são acrescentadas na análise.

Artigo publicado no ano passado pela economista Claudia Goldin, da Universidade de Harvard, observa que os desequilíbrios salariais de gênero são particularmente acentuados entre os profissionais de Direito e Administração de Empresas, apesar do fato de os recém-formados começarem com remunerações similares. O problema, diz Goldin, é que, para avançar nessas carreiras, a pessoa precisa dedicar um tempo enorme a reuniões e outros tipos de "encontros presenciais".

Por outro lado, entre os farmacêuticos, que são pouco penalizados quando trabalham apenas meio-período, não se observam diferenças significativas nas remunerações de homens e mulheres.

Outro estudo, que Goldin realizou em colaboração com Lawrence Katz (também da Universidade de Harvard), aponta que, entre advogados e PhDs que se encontram no meio da carreira, afastamentos do trabalho por períodos de 18 meses estão associados a uma queda de 29% na remuneração. No caso de executivos com MBA, as perdas salariais chegam a 41%. Com efeito, grande parte da desigualdade salarial de gênero pode ser vista como um custo associado à decisão de ter um filho.

Em certa medida, as informações reveladas pelo PayScale são óbvias: não se deve esperar grandes diferenças na remuneração de duas pessoas que realizam exatamente o mesmo trabalho. A contribuição do relatório é auxiliar as autoridades a elaborar as perguntas corretas. Em vez de fixar um índice de desigualdade global para a remuneração de homens e mulheres, seria mais proveitoso tentar saber quem consegue quais empregos e por quê.

©2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

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