Salário sobe mais que desempenho da indústria

Estudo da Fiesp mostra que produtividade caiu 0,8%, enquanto salários subiram 3,4% . É um sinal de que os segmentos mais afetados pela crise tendem a não dar trégua nas demissões

Marcelo Rehder,

24 de julho de 2012 | 22h10

SÃO PAULO - O aumento dos gastos com mão de obra bateu de longe a evolução da produtividade do trabalho na indústria brasileira nos últimos 12 meses. De junho de 2011 a maio deste ano, a produtividade medida pela relação entre a produção física e o número de horas pagas teve queda média de 0,8% na comparação com o período anterior, enquanto a folha de pagamento por trabalhador teve alta de 3,4% em média, já descontada a inflação.

É um sinal de que os segmentos mais afetados pelos efeitos da crise externa tendem a não dar trégua nas demissões.

Nesse período, o aumento dos gastos com a folha de salários superou em 4,2 pontos porcentuais a variação da produtividade, de acordo com estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), feito com base em dados da pesquisa industrial mensal do IBGE. Para a entidade, que reúne sindicatos patronais que negociam salários com trabalhadores, o fraco desempenho da produtividade está relacionado com o baixo dinamismo da produção.

A queda na produtividade reduz a capacidade das empresas de absorver aumentos de custos sem repassá-los aos preços. Num ambiente de concorrência acirrada com importados, muitas são levadas a reduzir margem de lucros ou fazer demissões.

A desvalorização recente do real ante o dólar até que deu um alívio ao setor na comparação direta com a concorrência dos importados. A cotação, que ficou durante muito tempo variando entre R$ 1,60 e R$ 1,75, hoje está ao redor de R$ 2. O fato é que, em dólares, o crescimento da folha de pagamentos por trabalhador foi de apenas 0,2% no período pesquisado. Nesse contexto, o ganho dos salários sobre a produtividade foi de apenas 1 ponto porcentual.

"O problema é que a melhora do câmbio veio com uma situação de agravamento da crise externa", alega Paulo Francini, diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos da Fiesp. "Como todo mundo está louco para vender, pois existe uma capacidade instalada da indústria excedente no mundo, muitas vezes o fornecedor externo oferece descontos que chegam a eliminar o ganho cambial do fabricante nacional."

Trabalhadores

Do outro lado do balcão, os sindicalistas não baixam a bandeira de luta por aumento real de salário. "O tema produtividade só reaparece na agenda das negociações, pelo lado patronal, quando é para justificar dificuldades", diz Nelson Karan, diretor técnico em exercício do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). "Nos momentos de bonança do crescimento da produtividade, os ganhos são apropriados pelas empresas, sem repassá-los para o salário dos trabalhadores e muito menos para os consumidores, na forma de redução de preços."

O economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e assessor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), lembra que a produtividade da indústria permanece estagnada há quatro anos, enquanto os salários reais só sobem, numa conta que não fecha. Para ele, não são os salários que devem ceder, mas a produtividade é que tem de ser reforçada. "Salários elevados fortalecem o mercado interno, e a indústria precisa alavancar a sua produtividade para acompanhar esse aumento de custo", afirma o economista. Para isso, é preciso investir em novas máquinas e equipamentos e na formação e treinamento da mão de obra.

Para mudar o placar desse jogo, Francini sugere dois caminhos, ambos complicados nesse momento. Um deles seria a economia brasileira voltar a crescer de forma sustentada. O outro seria convencer os sindicatos de trabalhadores de que o momento não é adequado para eles pedirem aumento real de salário. "Se alguém conseguir convencê-los, vai ser considerado um herói", admite o empresário.

"Está muito mais caro produzir no Brasil que nos outros países do Brics (sigla que se refere a Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que se destacam como países em desenvolvimento), ou mesmo na Europa e EUA", diz o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. "Se pegarmos a empresa mais competitiva do mundo e a pusermos no Brasil, ela imediatamente perde sua competitividade num ambiente de altos juros, alta e complexa carga tributária, alto custo da energia e falta de infraestrutura."

Mais de dois terços dos setores foram afetados

Segundo a Fiesp, a pressão de aumento do custo do trabalho acima da variação da produtividade afetou 12 dos 15 setores da indústria nos últimos 12 meses. A situação mais complicada é a dos têxteis, cujas fábricas enfrentaram queda de 8,7% na produtividade e aumento de 2,9% no custo da folha de pagamento do trabalhador.

"Somos uma indústria absolutamente competitiva dentro das fábricas, mas enfrentamos uma importação avassaladora de produtos asiáticos que recebem todos os subsídios possíveis para baratear preço e gerar emprego nos países de origem", diz Aguinaldo Diniz Filho, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções. Ele cita que exportadores chineses contam com 27 tipos de incentivos para baratear ainda mais o preço. "As medidas anunciadas pelo governo até agora mostram uma sensível preocupação com a desindustrialização e a redução dos empregos no País, mas ainda não são suficientes."

No primeiro semestre de 2012, a importação de produtos do setor atingiu U$ 3,3 bilhões, 9,9% mais que em 2011. Desse total, o vestuário respondeu por US$ 1,1 bilhão, o que representa forte aumento de 39%.

Segundo a Fiesp, os resultados negativos atingiram desde setores com maior intensidade tecnológica, como máquinas e equipamentos e meios de transporte, até segmentos ligados à disponibilidade de recursos naturais, como alimentos e bebidas e metalurgia básica.

Entre os cinco setores com bom desempenho estão os fabricantes de madeira, cuja produtividade subiu nada menos que 12,8%. No setor de papel e gráfica, o ganho de produtividade foi de 7,6% e na indústria do fumo, de 7,1%.

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