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Salário também depende de qualificação e fatores pessoais

Estudo aponta que não é adequado comparar setores diferentes da economia ao avaliar o efeito da terceirização

Hugo Passarelli, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 03h00

A diferença salarial entre trabalhadores terceirizados e os contratados diretamente pelas empresas depende não só do regime de trabalho em si, mostra um novo estudo elaborado pelos pesquisadores Guilherme Stein, Eduardo Zylberstajn e Hélio Zylberstajn. A pesquisa mostra que o grau de qualificação e as características de cada trabalhador influenciam nas remunerações e devem ser consideradas nas comparações. 

Com base em dados da Rais - um compilado sobre o emprego formal no Brasil - no período entre 2007 e 2012, os pesquisadores concluíram que os terceirizados podem receber um salário até 17% menor.

Nos detalhes, contudo, há diferenças significativas. Os resultados mostram que as atividades de baixa qualificação tendem a ter remuneração menor para os terceirizados. Já entre os mais qualificados, praticamente não há diferença ou o salário é até maior.

No segmento de telemarketing, por exemplo, os terceirizados ganharam em média até 12% menos de 2007 a 2012. Por outro lado, no setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), praticamente não houve diferença salarial. E, em outros, como no serviço de segurança, os trabalhadores terceirizados receberam em média 5% mais.

“Não existe um diferencial padrão de salário e a terceirização não significa, necessariamente, precarizar o trabalho”, afirma Eduardo Zylberstajn, um dos autores do estudo.

O pesquisador ressalta que o levantamento não inclui a análise dos benefícios a que os empregados têm direito nem as condições de trabalho.

O estudo também mostra que as diferenças salariais não são estáveis ao longo do tempo, mesmo em segmentos mais prejudicados do ponto de vista do salário.

No setor de telemarketing, praticamente não existia disparidade de remuneração entre trabalhadores terceirizados e contratados diretamente pelas empresas nos anos 2011 e 2012, quando o emprego formal vivia forte expansão no País.

Subjetivo. O levantamento fez um trabalho estatístico sobre os dados para relativizar os efeitos da terceirização sobre os salários. Foram suavizados os chamados efeitos observáveis, como escolaridade e gênero, para deixar todos os trabalhadores numa mesma régua. Com isso, a diferença salarial em relação aos terceirizados caiu para 12%.

Os pesquisadores ainda apresentaram outro tipo de comparação. Com uso dos microdados da Rais, foi possível acompanhar a carreira de um mesmo trabalhador que alternou entre os regimes de terceirização e contratação direta. Nessa análise, os terceirizados passaram a receber só 3% menos.

“Comparar uma mesma pessoa ao longo do tempo elimina não só as diferenças de escolaridade, região e gênero, como também as características mais subjetivas e que não estão disponíveis na base de dados, como a postura do trabalhador”, afirma Eduardo Zylberstajn. 

Na avaliação dos pesquisadores, o estudo aponta para uma tendência de transformação na terceirização no Brasil. Segundo eles, os dados evidenciam que esse modelo está deixando de ser um mero mecanismo para reduzir custos trabalhistas para ajudar a melhorar a competitividade das empresas.

Para Eduardo Zylberstajn, os resultados ainda exigem uma reflexão sobre o papel dos sindicatos na negociação. “O assunto é polêmico, mas a grande questão que fica é a da representação sindical, se de fato o trabalhador terceirizado passa a ser representado por um sindicato com menos força.”

A participação da terceirização também varia. O setor de menor presença foi o de montagem e manutenção de equipamentos, que tinha 5,4% trabalhadores terceirizados em 2012, enquanto telemarketing tinha quase 60% de contratados por esse regime.

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