Rafael Neddrmeyer/Fotos Públicas
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Salários devem seguir com perda real mesmo com desaceleração da inflação

Cenário atual combina queda da atividade produtiva e demissões mais frequentes, o que leva a uma diminuição do poder de barganha dos trabalhadores

Mário Braga, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2016 | 17h15

Apesar de as projeções indicarem um arrefecimento da inflação nos próximos meses, parte dos brasileiros deve voltar a ter perda real de salário em 2016 assim como ocorreu em 2015, na avaliação de sindicalistas e economistas ouvidos pelo Broadcast. O cenário atual, dizem, é o pior possível para as negociações salariais, já que combina reajustes de preços elevados, queda da atividade produtiva, demissões cada vez mais frequentes e, consequentemente, a diminuição do poder de barganha dos trabalhadores.

Especialistas consideram que a situação da inflação ao longo de 2016 pode até ser melhor que a do ano passado, mas a desaceleração será insuficiente para garantir ganhos reais nas negociações salariais uma vez que a produção e as vendas devem seguir se deteriorando e sendo o principal fator a pesar nas conversas entre patrões e empregados. Para o economista Fábio José Ferreira da Silva, do Conselho Regional de Economia de Pernambuco, "uma grande correção do mercado de trabalho" ainda está em curso. "A perda real de salário pode até ser menor que no ano passado, mas os reajustes ainda devem ficar no negativo em 2016", estimou.

Hélio Zylberstajn, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), acrescenta que a queda da renda e a diminuição das vendas devido à recessão comprimem a capacidade das empresas de repassar custos, o que também limita a concessão de aumentos salariais acima da inflação. "Não vejo espaço para ganho real em 2016", diz. Dados da Fipe reforçam a análise. Em fevereiro, 63,9% das negociações salariais resultaram em reajustes inferiores ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). O número representa um avanço de 45 pontos porcentuais em apenas um ano, já que no segundo mês de 2015, os acordos que impunham perdas reais de salário se limitavam a 18,8% do total.

Encarando também uma crise global específica no setor de óleo e gás, José Maria Rangel, coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), aponta a atividade - e não os reajustes de preços - como principal obstáculo. "O fato de haver inflação elevada não impede necessariamente o ganho real", afirma. Luiz Carlos Dias, presidente da Federação Estadual dos Metalúrgicos de São Paulo (FEM), concorda que mesmo que a inflação esteja um pouco acima do centro da meta (de 4,5%), o crescimento da atividade e a produção em alta facilitam a obtenção de ganhos reais. "O cenário atual de inflação alta, economia e produção em baixa e demissões aumentando é o que menos queremos. Dificulta muito a vida dos dirigentes sindicais", avalia.

Outra pesquisa da Fipe, realizada em parceria com a empresa de recrutamento online Catho, corrobora que o poder de barganha dos trabalhadores não só recuou, como está no menor nível desde o fim de 2011. Segundo o levantamento, a relação de vagas por candidato recuou 36,6% entre fevereiro de 2015 e igual mês de 2016, a 16ª retração consecutiva nesta base de comparação.

Dias, da FEM, diz ter expectativas de que a economia apresente melhoras até o segundo semestre, o que pode propiciar melhores termos no acordo coletivo deste ano. "Já temos alguns sinais de que a atividade está batendo no fundo do poço. Como a nossa data-base é setembro, talvez tenhamos um cenário econômico e político melhor até lá", estimou, admitindo ser otimista.

Já Rangel, da FUP, considera que a instabilidade e a imprevisibilidade atuais são tão grandes que é difícil traçar um cenário para os próximos seis meses. "Ainda não paramos para pensar na negociação que ocorrerá no segundo semestre. É prematuro fazer uma avaliação porque a conjuntura está complicada e fatos novos surgem a cada dia", explicou.

Zylberstajn projeta que, em um cenário otimista, com a solução do impasse político ainda no segundo trimestre de 2016 e o início de um processo de retomada da economia ao longo do segundo semestre do ano, os trabalhadores brasileiros voltariam ter ganhos reais de salários apenas em 2017. "E mesmo assim, não devem ser ganhos expressivos como já tivemos em anos anteriores", estima. 

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