Salários perdem corrida contra a inflação

Este ano, até outubro, 50% dos reajustes foram abaixo do INPC, e quadro de 2017 pode ser pior

Thaís Barcellos, Impresso

28 Dezembro 2016 | 05h00

O ano de 2017 será igualmente ruim ou ainda mais complicado para as negociações salariais dos trabalhadores, que tiveram em 2016 o pior ano de reajustes desde 2002.

Em 2016, ano em que a taxa de desemprego alcançou os dois dígitos pela primeira vez desde 2012, quando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Contínua (Pnad Contínua) foi iniciada, a parcela de reajustes abaixo da inflação atingiu 50% das negociações no acumulado até outubro. O dado é do projeto Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que também mostra que, em outubro de 2015, essa proporção estava em 20% e, no mesmo mês de 2014, em 5%.

Neste ano, os bancários, cujo sindicato é bastante forte, tiveram os salários achatados pela primeira vez desde 2004. Após 31 dias de greve, a categoria aceitou a proposta de reajuste de 8% nos vencimentos em 2016. Neste período, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que é o indicador de inflação usado para os reajustes salariais, alcançou 9,2%.

“Desde 2004, tínhamos reposição salarial e reajuste real. A campanha de 2016 foi a mais difícil que já enfrentei. Em 2017, esse cenário vai se intensificar, porque a recessão deve continuar, assim como a crise política e institucional. No nosso caso, ainda tem a questão tecnológica”, disse o presidente da Confederação Nacional de Trabalhadores do Ramo Financeiro, Roberto Von der Osten.

Após um ano marcado por reajustes abaixo da inflação, a avaliação dos economistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, é que em 2017 os acordos serão, mais uma vez, dificultados pelo ambiente econômico recessivo. Há ainda a expectativa de pico do desemprego e continuidade da crise política. Diante desse cenário, algumas categorias se anteciparam e fecharam acordos neste ano que contemplam a recomposição salarial de 2017, sem aumento real na renda.

“O desemprego atingirá o ápice em março, com 12,7%, mas essa projeção pode ser pior, uma vez que os dados fracos de atividade podem atrasar ainda mais a retomada da economia. A crise política alimenta a crise econômica, fazendo com que a recuperação seja mais lenta do que a esperada, o que atrasa a retomada do emprego”, resumiu o analista econômico da RC Consultores Everton Carneiro.

Para 2017, a expectativa do Dieese também não é otimista. “O mais certo é que a economia não se recupere em 2017. Mesmo que o PIB cresça 1%, será sobre uma base deprimida. Assim, é difícil imaginar reajustes acima da inflação em 2017”, afirmou José Silvestre, diretor de relações sindicais do Dieese.

O Bradesco também vê atraso na retomada do emprego. Em relatório recente, o banco mudou sua projeção para taxa de desemprego média em 2017 de 12,5% para 12,9%.

Nem mesmo a inflação mais baixa deve impedir o ano ruim para as negociações salariais. Para o economista e coordenador do projeto Salariômetro, Hélio Zylberstajn, a inflação menor vai ser anulada pelo desemprego maior e pela crise. O INPC fechou 2015 em 11,28% e deve terminar este ano próximo dos 7%, segundo Zylberstajn. “Mesmo com a expectativa de inflação em níveis menores no ano que vem, deve continuar difícil para os trabalhadores conseguirem reajuste real, porque, em um cenário de desemprego alto, as categorias vão preferir a manutenção dos postos de trabalho.”

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