Saldo comercial surpreende e supera previsão

Expectativa inicial era de que o superávit seria de US$ 8,1 bilhões, mas já está em US$ 26,4 bilhões

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h06

O ano se aproxima do fim com resultados de crescimento econômico e inflação no Brasil bem piores do que se previa no início de 2011. Mas em um indicador, pelo menos, houve uma grande surpresa positiva: a balança comercial.

Segundo projeções coletadas pelo Banco Central, a expectativa do mercado no começo do ano era de que o saldo comercial seria de US$ 8,1 bilhões. Na última rodada de coletas, relativas ao dia 11 de novembro, a projeção já havia subido para US$ 28 bilhões, um salto de praticamente US$ 20 bilhões ao longo do ano. Até a segunda semana de novembro, o saldo anual já acumulava US$ 26,4 bilhões.

"Eu fui chamado de louco no final de 2010 com a minha projeção de US$ 26 bilhões", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

O bom desempenho da balança comercial evitou que o déficit em conta corrente brasileiro ultrapassasse o limite considerado delicado pelos analistas.

No final de 2010, as projeções do déficit em conta corrente para 2011 bateram em quase US$ 70 bilhões. Agora, elas já caíram para US$ 55 bilhões, num recuo de US$ 15 bilhões.

"O déficit em conta corrente acabou ficando num nível muito tranquilo, abaixo de 2,5% do PIB", diz Bruno Lavieri, economista da consultoria Tendências. O limite que causa mais alarme é quando o indicador ultrapassa 4% do PIB, mas a partir de 3% ou 3,5% a situação já começa a ficar incômoda para os economistas mais preocupados com a vulnerabilidade externa.

Segundo as projeções da Tendências, o déficit em conta corrente em 2011 deve ficar em US$ 54,9 bilhões, ou 2,2% do PIB. Em 2012, o indicador deve subir para US$ 62,7 bilhões, mas ainda em nível gerenciável, de 2,3% do PIB. Essa perspectiva sustentável do déficit externo brasileiro vem contribuindo para ampliar a imagem de solidez dos fundamentos econômicos, que está por trás da promoção do rating (classificação de risco) do País, como o "upgrade" da S&P esta semana de BBB- para BBB.

A Tendências também esteve entre a minoria das instituições que fez, no final de 2010, uma previsão acurada da balança comercial de 2011, apostando no número de US$ 28 bilhões.

Para 2012, a consultoria prevê um saldo comercial em torno de US$ 25 bilhões, segundo Lavieri. Ele acha que as commodities devem sustentar o nível de preços atual, e o crescimento das importações deve perder ímpeto, com a desaceleração da economia brasileira (ver abaixo).

O bom desempenho da balança comercial, porém, está cada vez mais calcado no sucesso do Brasil como exportador de commodities, o que inquieta os analistas preocupados com uma possível desindustrialização.

Segundo dados de um relatório recente do grupo financeiro Nomura, com base nas estatísticas da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), a balança comercial brasileira neste ano, até agosto, registrava um déficit comercial de US$ 51,7 bilhões no setor industrial. Esse resultado negativo, por sua vez, era mais do que contrabalançado pelo superávit de US$ 83,7 bilhões do setor não industrial (basicamente commodities) no mesmo período.

Segundo o relatório, redigido pelo brasileiro Tony Volpon, "não é de espantar que o debate sobre desindustrialização tenha ganhado fôlego e o governo brasileiro tenha começado a adotar políticas protecionistas, como o último aumento das tarifas de importações de automóveis".

O texto prossegue afirmando que, "sejam quais forem as críticas que se tenha sobre a política (econômica) no Brasil, não se pode negar que os ávidos consumidores brasileiros fizeram mais do que se podia esperar deles pelo reequilíbrio global".

Ele se refere à forte demanda dos brasileiros por produtos industrializados, o que resulta em déficit comercial. Isso contribui para a demanda global, prejudicada pelo fraco desempenho econômico dos países ricos.

Um dos motivos do bom desempenho da balança comercial brasileira em 2011 é justamente a forma como a crise está abalando a economia global. Enquanto os países desenvolvidos estão sendo fortemente afetados, a China e os países asiáticos em geral, de onde vêm a forte demanda pelas commodities exportadas pelo Brasil, continuam com uma boa performance. "O fato é que o preço das exportações continua bastante alto", diz Volpon, chefe de pesquisa para a América Latina do Nomura.

O exemplo mais contundente do desempenho das commodities exportadas pelo Brasil é o minério do ferro, cujos preços triplicaram entre outubro de 2009 e setembro de 2011.

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