Rafael Matsunaga/Wikimedia Commons
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Saída de capital externo da Bolsa é maior que o registrado na crise de 2008

Movimento de saída do capital estrangeiro se reflete na desvalorização da Bolsa e do câmbio; e é consequência da busca de segurança global

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2019 | 05h00

O fluxo de recursos estrangeiros na Bolsa brasileira em 2019 registrou o pior saldo no acumulado até agosto em comparação a 2008, ano da crise financeira global. Ou seja, os investidores externos tiraram mais recursos do que aplicaram na B3

Até o dia 15 deste mês (dado mais recente), o volume estava negativo em R$ 19,1 bilhões. Em 2008, o saldo no vermelho registrado no ano até o fim de agosto era de R$ 16,5 bilhões. O valor de agora é pior até mesmo do que o de setembro daquele ano (-R$ 18,3 bilhões), quando o mercado já repercutia a quebra do banco Lehman Brothers.

Para o coordenador do laboratório de Finanças do Insper, Michel Viriato, essa saída de capital é parte importante do movimento que se observa na valorização do dólar – que fechou ontem a R$ 4,07, o maior valor em três meses – e queda do Ibovespa, principal índice da Bolsa paulista, que perdeu os 100 mil pontos na última semana e terminou o dia de ontem mais uma vez em baixa (ler mais ao lado). 

Viriato chama a atenção para o fato de que os estrangeiros já estão em ritmo de saída desde 2018. O ano – que teve greve de caminhoneiros e eleições presidenciais, trazendo insegurança ao mercado – acumulou R$ 11,521 bilhões em saídas – valor inferior ao registrado só nos primeiros oito meses deste ano. 

“Criou-se uma expectativa, que está sendo frustrada, de que o estrangeiro estaria olhando apenas para a reforma da Previdência para voltar ao Brasil. Mas ele está olhando para o contexto global, no qual os emergentes não parecem boas opções”, diz Viriato. 

O professor explica que o cenário de guerra comercial entre os EUA e a China representa risco para o crescimento dos emergentes, que têm o país asiático como parceiro comercial. Somado a isso, o risco de desaceleração global que já persegue os investidores faz aumentar a busca por segurança e, consequentemente, a saída de investimentos de economias emergentes.

Cenário doméstico

Para o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV, William Eid Júnior, a situação interna do Brasil também repele os investimentos de fora. “As reformas deveriam ter andado de forma mais acelerada. A recuperação da atividade econômica está muito lenta. O IBGE deve divulgar em breve números que nos colocam em recessão técnica”, diz. “Considerando tudo isso, mais a busca global por segurança, as prévias da eleição argentina foram a gota d’água para os investidores de fora”, explica o professor que pontua ainda que a participação de mais de 40% de estrangeiros na Bolsa brasileira indica que eles ainda têm a maior influência no mercado financeiro do País. 

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