Saldos comerciais enganosos

Foi-se o tempo em que todos os estágios de produção industrial permaneciam dentro de uma única fronteira nacional. O avanço dos meios de transporte e das tecnologias de informação e de comunicação facilitou a criação de redes de produção globais com o deslocamento internacional de partes, componentes e produtos semiacabados. Estima-se que, atualmente, o comércio global em bens intermediários represente 56% do comércio total de bens industriais (Miroudot, S. Lanz R. & Ragoussis, A, Trade in intermediate goods and services, OECD Trade Policy Working Paper, 93 - 2009).

PATRICIA MARRONE, economista(USP) e sócia da Websetorial - Consultoria Ecônômica para Sindicatos e Entidades Patronais, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h06

Quanto a isso, um exemplo muito citado na literatura detalha a composição do valor do iPhone4, da Apple. Do seu valor de fábrica na China, US$ 187, apenas US$ 21 são gerados em fábricas locais, já que a maior parte dos componentes é do Japão, dos Estados Unidos e da Coreia do Sul.

Com a generalização da integração produtiva, os dados de fluxos de comércio (importações e exportações) passaram a fornecer uma perspectiva equivocada de onde o valor é gerado, já que são medidos pelos valores de entrada e saída, em sucessivos cruzamentos de fronteiras, com o que não refletem o valor adicionado localmente.

Assim, o efetivo resultado da balança comercial em termos de valor adicionado pode diferir bastante do saldo mostrado pelos preços dos bens finais comercializados. Estudos da OMC mostram que o superávit chinês com os Estados Unidos, obtido por meio dos dados brutos de comércio, seria 40% menor se contabilizado pelo valor adicionado. Daí a natureza enganosa dos desequilíbrios em balanças comerciais. Portanto, medir o comércio em valor adicionado seria importante para entender onde a competitividade é gerada no lado da oferta. Já os dados brutos de exportações e importações continuam a servir para identificar quem compra os produtos.

Wassily Leontief, economista premiado com o Nobel, sistematizou as relações intersetoriais de uma economia, mostrando o produto final de um setor como insumo para outro, na forma de uma matriz, denominada de insumo-produto. E, para entender as participações nacionais nessas cadeias de valor, elas foram aplicadas também aos fluxos de comércio entre países, procurando separar informações sobre bens finais de bens intermediários. Com isso, foi possível calcular, por exemplo, que a parcela do valor adicionado importada e posteriormente exportada tenha correspondido a 21,5% das exportações globais e a 12,7% nas exportações brasileiras em 2004 (Koopman, R. e outros: Give credit where the credit is due: tracing value added in global production chains - NBER Working Paper 16426, September 2010).

Outros estudos mostram que a indústria dos grandes países desenvolvidos vem apresentando participações crescentes de produtos intermediários em suas exportações e também importações decrescentes destes, enquanto grandes países em desenvolvimento têm apresentado o movimento no sentido inverso. China e México são os mais integrados em cadeias produtivas globais. Conforme a OCDE, de 1995 para 2010 os produtos intermediários saltaram de 68% para 77% da pauta de importações chinesa. A evidência é também válida para o Brasil, onde houve crescimento de 62% para 68% das importações de produtos intermediários nesses 15 anos, segundo a mesma metodologia. Em 2004, nossa pauta de intermediários importados chegou ao ápice de 77%, mas, provavelmente, devido à valorização do real, deixamos de participar da cadeia global de valor, retroagindo aos 68% atuais.

Entre outras, as implicações para o Brasil são: nossas políticas industriais devem estimular a inovação em produtos, estimular a especialização em estágios de produção nos quais o valor adicionado possa ser ampliado internamente e melhorar as condições para que as cadeias industriais busquem maior participação da indústria nacional no contexto global.

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