Gabriela Biló/Estadão
Ministro confirmou a debandada da equipe econômica, mas disse que governo vai avançar com as reformas. Gabriela Biló/Estadão

Guedes anuncia 'debandada' com saída de Salim Mattar e Paulo Uebel da Economia

Com saída de secretários especiais, equipe já perdeu cinco nomes e os dois eram os que mais defendiam o discurso liberal

Adriana Fernandes e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 19h37
Atualizado 11 de agosto de 2020 | 22h45

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes perdeu nesta terça-feira, 11, dois integrantes da sua equipe que mais tinham a marca da agenda liberal que prometeu implementar na economia no início do governo. 

Os secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, pediram demissão. O empresário, um dos fundadores da Localiza, Mattar, e o economista Uebel saem após um ano e meio de dificuldades para implementar as medidas para quais foram convidados a integrar o governo Bolsonaro: as privatizações e a reforma administrativa, duas das quatro principais agendas de Guedes, além das reformas da Previdência e tributária.

Auxiliares de Guedes reconhecem que esse é um dos momentos mais difíceis para ele desde o início do governo e temem que ele também possa pedir demissão.

“Se me perguntarem se houve uma debandada hoje, houve”, disse Guedes, depois de se reunir com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Segundo o ministro, apesar das demissões, o governo vai “avançar com as reformas”. “Nossa reação à debandada que ocorreu vai ser avançar com as reformas”, afirmou. 

Segundo Guedes, Mattar saiu porque está insatisfeito com o ritmo das privatizações. “O establishment não deixa. Não avançamos nas privatizações com a mesma velocidade do que na Previdência”, disse Guedes.

Já Uebel pediu demissão por discordar da estratégia do governo federal de deixar parada a reforma administrativa, que faz uma reformulação do RH do Estado. Guedes disse que o “timing” da reforma, engavetada pelo presidente Jair Bolsonaro por mexer com o funcionalismo público, é “político”.

Com as duas saídas de hoje, a equipe econômica soma agora cinco baixas. Nas últimas semanas, Mansueto Almeida já havia deixado o Tesouro Nacional, Caio Megale deixou a diretoria de programas da Secretaria Especial da Fazenda e Rubem Novaes anunciou que deixará a presidência do Banco do Brasil

A queda de Mattar e Uebel, considerados liberais “puro sangue” do governo, foi interpretada com uma derrota da agenda liberal de Guedes em troca da reeleição do presidente Bolsonaro, que se aproximou de lideranças políticas contrárias à reforma administrativa e à venda das estatais.

Conflito

Durante a campanha eleitoral, o conflito do presidente, um político com viés desenvolvimentista, e a agenda liberal do seu superministro Paulo Guedes, o seu “posto Ipiranga”, foi previsto por economistas e cientistas políticos. A crise da pandemia de covid-19 acirrou os conflitos entre os dois grupos e antecipou a disputa por conta dos planos da retomada econômica, segundo admitem fontes do governo. 

Mattar, um dos grandes financiadores do desenvolvimento do movimento liberal no País, nos últimos anos, vinha manifestando desconforto nos bastidores com as resistências em avançar nas privatizações, entre elas, dos Correios e estatais ligados à área de infraestrutura. Há duas semanas, diante de notícias de que deixaria o governo, chegou a disparar mensagens pelo celular e nas redes sociais que continuava animado com o trabalho em Brasília. Ele chegou ao governo com um dos nomes mais festejados da equipe de Guedes.

Com Mattar, nenhuma estatal federal de controle direto que foi privatizada ou liquidada. Pelo contrário. O governo Bolsonaro criou uma nova estatal, a NAV, responsável pela navegação aérea. O Ministério da Economia cita como realizações na área a venda de subsidiárias por estatais-mãe, como a Petrobrás, o que é tecnicamente considerado um desinvestimento, cuja decisão e todo o processo não passa pelo governo.

Já o economista Paulo Uebel não resistiu ao fracasso da reforma administrativa, que foi engavetada pelo presidente. A gota d’água foi a notícia de que o presidente deixaria a sua discussão para 2021, no mesmo dia que o Instituto Millenium, do qual foi um dos dirigentes, iniciou a campanha “Destrava” para que ela voltasse à agenda ainda neste segundo semestre.

“Trocaram a agenda liberal pela eleitoral”, avaliou o deputado Pedro Paulo (DEM-RJ). Segundo ele, a saída dos dois secretários é um sinal de que a agenda liberal perdeu força.

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Furar o teto de gastos poderia levar a impeachment de Bolsonaro, diz Guedes

Ministro disse que conselheiros colocam o presidente em uma 'zona sombria'; declaração ocorre em meio ao aumento da pressão de líderes políticos por dribles na regra do teto

Camila Turtelli e Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 22h18

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, nesta terça-feira, 11, que se o presidente Jair Bolsonaro ouvir “conselheiros” que defendem furar o teto de gastos, mecanismo que proíbe que os gastos cresçam em ritmo superior à inflação, pode parar na “zona sombria” do impeachment.

“Os conselheiros do presidente que estão sugerindo pular a cerca e furar teto e vão levar o presidente para uma zona de incerteza, uma zona sombria. Uma zona de impeachment de responsabilidade fiscal. E o presidente sabe disso e tem nos apoiado”, disse Guedes a jornalista após uma reunião de mais de uma hora com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), para debater o tema.

A declaração ocorre num momento em que a pressão por dribles no teto, até mesmo por parte do governo, colocou em estado de alerta os investidores do mercado financeiro.

Guedes disse ainda que antes de chegar à reunião, conversou com Bolsonaro. “O presidente me garantiu que é a favor da manutenção do teto”, disse. O ministro fez elogios aos parlamentares e disse que o Congresso trabalhou durante a crise e que a reforma do Estado, agora, é o caminho “mais importante”.

Como o Estadão antecipou, a equipe econômica prepara uma força-tarefa no Congresso em defesa do teto de gasto. A ideia é apresentar aos deputados e senadores números e dados que mostrem a atual situação fiscal do País e quais consequências do abandono do mecanismo neste momento. Uma espécie de “road-show” (espécie de sessões públicas itinerantes) está sendo preparado pelo Ministério da Economia. As datas, porém, não estão definidas.

Entre os dados que serão apresentados pela equipe econômica aos congressistas, está a previsão de alta da dívida bruta do governo para 98,2% do Produto Interno Bruto em 2020 com o aumento do rombo nas contas públicas diante dos gastos maiores para o enfrentamento da covid-19.

Manobras

O investidor está de olho no comportamento de integrantes do governo depois que reportagem do Estadão revelou tentativa dos ministros da Casa Civil, Braga Netto, e do Desenvolvimento Regional, Rogerio Marinho, de fazer uma consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU) para bancar investimentos em obras de infraestrutura com créditos extraordinários, que ficam fora do limite do teto. Outros movimentos foram feitos com o mesmo objetivo.

Na Câmara e no Senado, parlamentares de diversos partidos têm apresentado propostas para flexibilizar o teto e até mesmo estender o Estado de calamidade da pandemia, que termina em dezembro, até 2021. Com a calamidade, as regras fiscais, como necessidade de cumprimento da meta fiscal (com limite para o rombo das contas públicas), ficam suspensas.

“Sobre essa preocupação de todo mundo de dá um jeitinho para conseguir resolver seus projetos, sejam investimentos entre outras áreas, a gente veio aqui deixar claro qual a posição da presidência da Câmara, posição de parte dos líderes, que primeiro, de forma nenhuma vamos pautar, e eu espero que o governo não encaminhe, nenhuma prorrogação do estado de calamidade”, disse Maia. Segundo ele, a medida é para que a prorrogação não seja usada para furar o teto.

Gastos

Ele disse ainda que deve ser retomado o debate sobre gastos públicos, com a discussão dos chamados gatilhos, uma série de medidas para interromper o crescimento das despesas públicas. A maior parte dos ajustes previstos nos gatilhos se concentra nas despesas com pessoal, que não poderá ter qualquer tipo de reajuste, mesmo que para repor a inflação.

“Precisamos voltar a discutir primeiro a questão do teto dos gatos e seus gatilhos, eu acho que se nós conseguirmos avançar rápido nesse tema, nós vamos abrir espaço no momento em que de fato o Brasil precisa de investimentos privados, principalmente, mas também públicos, ninguém tá negando isso”, disse.

Maia disse que o governo e o Congresso devem encontrar caminhos para a economia voltar a crescer, sem furar o teto. “Não tem saída fácil, não é um momento simples”, disse. “Não tem jeitinho, não tem esperteza. O que tem é uma realidade”, disse.

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Com agenda liberal perdida, Guedes manda recado para o chefe

Ministro subiu o tom ao alertar presidente: furar o teto poderá levá-lo a 'zona sombria' do impeachment

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 22h32

Com a agenda liberal em xeque pelos planos de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, vive o seu inferno astral particular. 

Justamente no momento em que costurava com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e lideranças um acordo em defesa do teto de gastos no Congresso, Guedes se viu diante da “debandada” (nas suas próprias palavras) de mais dois dos seus secretários especiais: Salim Mattar e Paulo Uebel.

A queda de Salim e Uebel - no mesmo dia -  expõe de maneira clara as divergências entre o grupo de auxiliares “desenvolvimentistas” versus os “liberais”  da equipe econômica em torno do programa de retomada da economia depois do fim do Estado de calamidade da pandemia da covid-19.  

A divisão ficou ainda mais desbalanceada com o fortalecimento da ala militar pró-gastos e a aliança do presidente Jair Bolsonaro com lideranças de partidos do Centrão que lhe prometeram votos para na próxima. Votos que dependem de irrigação de recursos para obras e programas de governo.

O embate está em curso em torno dos gastos do governo e pega o ministro com uma equipe desidratada, num  momento de maior fragilidade diante do aumento da desconfiança dos investidores com a política fiscal.

Guedes resiste e hoje subiu o tom ao mandar um recado público ao presidente: furar o teto poderá levá-lo a "zona sombria" do impeachment. As palavras chocam.  

Nos últimos meses em Brasília, tem sido assim: o Ministério da Economia contra toda a Esplanada.

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