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Salvadores da epiderme

Temer mobilizará o Congresso em torno de sua pele, não em torno das reformas que tanto alardeou

Monica de Bolle, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2017 | 05h00

Aquele clichê da imagem que vale mais do que mil palavras? A fotografia de Temer entrando no avião enquanto um funcionário segura o guarda-chuva sobre sua cabeça. Não que outros governantes brasileiros não tenham também se recusado a segurar guarda-chuvas. Salvadores da pátria, resgatadores da nação, inventores de planos, genitores de reformas. Salvadores da pátria, não servidores da pátria. Quão anacrônica não deve ter sido a visita de Temer à Noruega, onde a Ministra da Fazenda anda de táxi, onde não havia entourage pomposa a esperá-lo no aeroporto. Talvez por isso tenha o presidente se confundido a respeito do reino em cujo chão pisava. A desorientação presidencial e a notória predileção pelo antigo também revelaram-se nas falas sobre a União Soviética, aquela que se desintegrou em 1991.

Mas, este artigo não é sobre as gafes de Temer, menos exuberantes do que a fábula da pasta de dentes e do dentifrício, do que a exaltação ao vento estocado, do que a eloquente saudação à mandioca de Dilma. Esse artigo é sobre as mentes antiquadas que dominam o reino do Jaburu, onde definitivamente há algo de podre. As mentes antiquadas que querem um plano econômico para chamar de seu, que tanto queriam que o governo de Michel Temer fosse trampolim para a glória de ser nomeado nos jornais pai de alguma coisa. Pais do Plano Real do Fiscal, talvez. Pais da Reforma da Previdência. Economistas gostam de achar que a economia é o cachorro, a política, o rabo. Mas, o cachorro é a política e a economia não abana a política, e sim o contrário. Disse Fernando Henrique Cardoso em seus volumes de memórias que governantes não são donos de seu destino. Menos ainda o são as equipes econômicas.

Mercados tentam ainda salvaguardar a esperança de que se possa separar da convulsão política a gestão econômica do País, as reformas. Há quem ainda acalente a ilusão de que o time de pessoas competentes instalado na Fazenda e no Banco Central por Temer seja invencível. A realidade mostra algo bem diferente. A realidade mostra que a competência não é capaz de transcender a ignomínia do governo para o qual escolheram trabalhar. Seus cargos são indicação política, e quem os indicou foi Temer, o denunciado. Difícil, não?

E o que colhemos de concreto na economia? Temos, por ora, a inflação em queda, o que é bom. Contudo, há chance de que em breve tenhamos deflação, ou queda generalizada dos preços. Isso não é nada bom, pois revela duas coisas em relação à condução da política monetária: de um lado, que a recessão implacável teve papel maior na queda dos preços do que a atuação do Banco Central; de outro, que o Banco Central errou nas suas avaliações sobre o quadro brasileiro – os juros deveriam ter caído mais rapidamente, como argumentei há um ano neste jornal. Do lado fiscal, a situação é ainda pior. Há risco concreto de que a meta de 2017 não seja cumprida, pois baseada estava em projeções excessivamente otimistas para o crescimento e na concretização de receitas extraordinárias que poucas chances têm de vingar. O desespero da Fazenda levou o ministro a anunciar balão de ensaio sobre o uso do FGTS para cobrir o seguro-desemprego, balão esvaziado pelas inúmeras críticas que recebeu. Meirelles não conteve a sanha gastadora de Temer, não aprovou parte relevante das reformas, não conseguiu pôr o Brasil nos trilhos. Dificilmente será lembrado como o pai do Plano Real do Fiscal.

Enquanto isso, Temer, o chefe, articula para salvar-se de Janot. Gastará precioso capital político para tanto e mobilizará o Congresso em torno de sua pele, não em torno das reformas que tanto alardeou. É impossível saber o que irá acontecer nas próximas semanas ou mesmo qual será o destino final de Temer. No entanto, é possível dizer com alguma confiança que a ampla reforma da Previdência, tão urgente, já era. É também razoável imaginar que o teto dos gastos sem Previdência repleto de goteiras e infiltrações estará, como também escrevi há um ano.

De salvador da pátria a sugador da pátria, segue Temer para o cadafalso de sua própria autoria. Que dessa desastrosa e trágica experiência possa surgir o verdadeiro espírito do servidor da pátria. Aquele que anda de táxi, segura seu próprio guarda-chuva, e tem a humildade de saber que seu destino está nas mãos daqueles que lhe conferem o privilégio de governar.

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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