Henrique Fernandez/Petrobrás
Henrique Fernandez/Petrobrás

Salvamento da Sete Brasil é suspenso após empresa aparecer na Lava Jato

Pedro Barusco, ex-diretor da empresa, disse em delação premiada que estaleiros pagaram propina para fechar contratos para construção de sondas; acionistas já preveem grandes dificuldades para que financiamentos sejam aprovados no curto prazo

Murilo Rodrigues Alves, Vinícius Neder, Josette Goulart, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2015 | 05h00

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deixou para a próxima diretoria a decisão sobre a operação de socorro à Sete Brasil, uma das principais fornecedoras da Petrobrás. Segundo fontes a par das negociações, isso ocorreu depois de a companhia ter sido citada em depoimento de delação premiada de Pedro José Barusco Filho, ex-gerente de engenharia da Petrobrás e ex-diretor da Sete Brasil. Nesta quinta-feira, documentos da delação tornaram-se públicos revelando esquemas de pagamento de propinas na companhia.

O fato de Barusco ter confirmado o pagamento de propinas pelos estaleiros para a empresa pode inviabilizar o empréstimo de longo prazo, na visão de alguns sócios do projeto. Se isso acontecer, a empresa não terá como honrar os compromissos e os cinco estaleiros contratados também ficarão em dificuldades. Dos cinco, três têm como sócios construtoras que já tinham sido citadas em outras fases da Lava Jato.

A aprovação do financiamento de longo prazo é vital para a Sete. Segundo alguns acionistas, em janeiro eles foram comunicados de que a Petrobrás havia informado o cancelamento do contrato de compra de sete sondas caso o financiamento não fosse aprovado. Desta forma, o projeto ficaria inviabilizado, fazendo um efeito dominó de perdas para os fundos de pensão (Previ, Petros, Valia e Funcef), os bancos Bradesco, Santander e BTG Pactual, além de EIG Global Energy Partners, a Lakeshore e a Luce Venture Capital e o fundo FI-FGTS, todos sócios da empresa com bilhões de reais aportados na companhia. Além da própria Petrobrás, que também é sócia.

Para tentar evitar esse efeito dominó o governo fez pressão nos bancos públicos, salvando não só a Sete mas também evitando um agravamento ainda maior da crise da indústria naval, com impacto em toda a cadeia produtiva e a geração de empregos.

Pela configuração do financiamento que estava sendo negociado, o BNDES ficaria responsável por liberar US$ 3 bilhões, a Caixa Econômica Federal por US$ 1,5 bilhão e o banco inglês UK Export Finance, que financia exportações, com uma quantia inferior, em torno de US$ 200 milhões. Mas toda essa negociação dependia também da Petrobrás e a renúncia coletiva da diretoria prejudicaram o andamento dessas negociações.

Segundo uma fonte próxima à Sete, as mudanças na diretoria da Petrobrás travaram o processo para finalizar o contrato de financiamento, que estava previsto para ser fechado esta semana. Os contratos da Sete com a Petrobrás, que será sua principal cliente, servem de garantia para os financiamentos da fornecedora junto aos bancos. Em nota, a empresa diz aguardar a posse da nova diretoria para concluir a operação.

Curto prazo. A empresa também está com dificuldades para honrar compromissos de curto prazo. Para resolver os problemas urgentes de caixa, também estava se negociando um empréstimo-ponte de R$ 800 milhões que seria liberado pelo Banco do Brasil ou por um consórcio de bancos liderado pelo BB. No entanto, esse empréstimo também estava condicionado à aprovação do financiamento de longo prazo, que serviria de garantia para o empréstimo-ponte.

Lava Jato. Nesta quinta-feira, tornaram-se públicos os depoimentos do primeiro diretor de operações da companhia, Pedro José Barusco Filho, que fez acordo de delação premiada. Ele informou que, além da Petrobrás, havia propinas no âmbito da Sete Brasil, especificamente para João Carlos de Medeiros Ferraz, presidente da empresa e Eduardo Musa, diretor de participações da empresa. Segundo o delator, de 1% sobre o valor dos contratos, a divisão se dava da seguinte forma: “2/3 para João Vaccari; e 1/3 para ‘Casa 1’ e ‘Casa 2’”.

Para lembrar. A Sete Brasil foi criada em 2011 com o objetivo de gerenciar as sondas que seriam usadas pela Petrobrás na exploração do petróleo do pré-sal. Apenas um ano após sua criação, os números da empresa impressionavam - tinha assegurado contratos de US$ 75 bilhões com a Petrobrás para afretamento e construção de 28 sondas perfuração para águas profundas.

A Sete foi uma forma encontrada pela própria Petrobrás, que detinha uma fatia de cerca de 10% na empresa, para construir as sondas no Brasil sem estourar seus limites de endividamento. As sondas seriam de propriedade da Sete Brasil, que as alugaria para a petroleira. A primeira delas seria entregue em junho deste ano.

A gestora foi criada a partir de sete investidores: os fundos de pensão Petros (Petrobrás), Previ (Banco do Brasil), Funcef (Caixa Econômica) e Valia (Vale), e os bancos Santander, Bradesco e BTG Pactual. Posteriormente, se juntaram Eletrobrás, EIG Global Energy Partners, a Lakeshore e a Luce Venture Capital e o fundo FI-FGTS.

A empresa, porém, acabou sendo diretamente envolvida na Operação Lava Jato. Seu ex-diretor de Operações, Pedro Barusco, fechou um acordo de delação premiada que acabaria mudando os rumos da empresa.

A Sete Brasil dependia do aporte do BNDES para conseguir cumprir os acordos com a estatal. Agora, seu destino fica mais indefinido.

Mais conteúdo sobre:
sete brasillava jatopetrobrás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.