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Salvamento do Panamericano livra Caixa de problemas

Sócia de Silvio Santos, instituição ficaria exposta a processos e diretores teriam bens bloqueados, além da perda de R$ 740 milhões

David Friedlander e Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

A operação de resgate do Panamericano não salvou apenas o pescoço de Silvio Santos, que escapou de perder boa parte de sua fortuna se o banco quebrasse. Ela também livrou a Caixa Econômica Federal, que se tornara sócia do banco, de um rosário de problemas.

Caso o Panamericano quebrasse, além de perder os R$ 740 milhões aplicados na compra do banco, a Caixa provavelmente ficaria exposta a uma chuva de processos movidos por pessoas e empresas que se sentissem prejudicadas com a falência - assim como Silvio. Por ser um banco do governo, no entanto, a Caixa ainda poderia ser acionada por qualquer cidadão.

Diretores e membros do Conselho de Administração indicados pela Caixa teriam seus bens imediatamente bloqueados por força de lei - ainda que não estivessem no banco quando foi produzido o rombo de R$ 4,3 bilhões. Entre eles, Maria Fernanda Ramos Coelho, presidente da Caixa, que também preside o Conselho do Panamericano.

"Seria um custo político muito grande no início de um governo", diz um advogado especializado em direito bancário. Consultada sobre as consequências de uma eventual quebra do Panamericano, a Caixa enviou uma nota em que descreve procedimentos contábeis que tomará daqui para a frente.

Fraude. Em setembro do ano passado, o Banco Central (BC) descobriu um rombo de R$ 2,5 bilhões no Panamericano, decorrente de fraudes na contabilidade. O problema veio a público em novembro, com uma solução costurada nos bastidores: o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), espécie de fundo de emergência para proteger clientes de bancos quebrados, cobriu o buraco. Silvio Santos, dono do Panamericano, deu seu patrimônio como garantia.

Na ocasião, uma nova diretoria foi indicada para o banco. Em grande parte, era composta por executivos da Caixa. Em dezembro de 2009, o banco federal havia comprado 36% do capital total do Panamericano (49% do votante). A nova administração descobriu que a farsa na contabilidade era ainda maior.

O novo rombo, antecipado pelo Estado, somava R$ 1,3 bilhão. O Panamericano acabou sendo salvo no fim de janeiro, quando o banco de investimentos BTG Pactual comprou a participação de Silvio Santos por R$ 450 milhões. Ao Fundo Garantidor, sobrou um calote de R$ 3,4 bilhões.

Socorro. O socorro ao Panamericano teve participação direta de Alexandre Tombini, presidente do BC. Na fase mais tensa da negociação, no último fim de semana de janeiro, ele pressionou Silvio e os banqueiros que controlam o FGC. Segundo pessoas que acompanharam o processo, o empresário não queria assumir o segundo rombo e ameaçava deixar o banco quebrar.

Na quinta-feira anterior ao início das negociações, que vararam o fim de semana, Silvio foi ao prédio do FGC dizer que, na primeira vez, já tinha assumido o prejuízo. O novo problema deveria ser resolvido pelos bancos. "Liquida o banco", dizia. "Estou protegido. Vou viver em Orlando (Estados Unidos) com minhas filhas." Procurado em várias ocasiões, Silvio não quis se pronunciar.

O empresário também bradava que, no Brasil, quem quebra banco não vai para a cadeia. "Veja o que aconteceu com o Edemar (Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos, que quebrou em 2004)", afirmava. Aqui, uma curiosidade: uma das filhas de Silvio (Rebeca) era casada com Leonardo, filho de Edemar. Eles se separaram pouco antes da explosão do caso Panamericano.

Os chefes dos maiores bancos do País foram ao prédio do FGC um dia depois de Silvio, para discutir o que fazer com o empresário e com o Panamericano. Estavam lá Aldemir Bendine (Banco do Brasil), Roberto Setubal (Itaú), Lázaro Brandão e Luiz Carlos Trabuco Cappi (Bradesco) e Fábio Barbosa (Santander). A maioria não queria que o FGC colocasse mais dinheiro no Panamericano.

Nesse dia, André Esteves, do BTG Pactual, avisou que topava comprar a parte de Silvio e mandou seu staff devassar os números do Panamericano no sábado e no domingo. Esteves não queria, porém, herdar os esqueletos do Panamericano e exigia o banco limpo de dívidas.

Domingo, Tombini voou para São Paulo e juntou os banqueiros para tentar convencê-los a abrir o cofre do FGC de novo, o que permitiria que a proposta de Esteves avançasse. Conseguiu, após afirmar, entre outras coisas, que a quebra do Panamericano poderia colocar em risco uma dezena de instituições de pequeno e médio porte.

Desfecho. Segunda-feira, foi a vez de Tombini demover Silvio. O empresário aceitara a proposta, mas recuou. "Por que vou dar essa colher de chá para o André (Esteves)?", dizia. À tarde, recebeu uma ligação de Tombini. Além disso, Esteves detalhou a oferta para Guilherme Stoliar, sobrinho e braço direito de Silvio.

O empresário, enfim, topou. O negócio foi assinado à noite, na sede do BTG, em São Paulo, exatos 82 dias depois de uma mensagem deixada por Silvio no celular de um dos executivos que negociaram o primeiro aporte do FGC no Panamericano.

Com sua voz inconfundível, o empresário encerrou o recado dizendo: "Podem estar certos de que o Fundo não vai ter nenhum prejuízo comigo."

Como se sabe, o FGC acabou amargando a perda bilionária. Silvio perdeu o banco, mas salvou suas outras empresas. E a Caixa provavelmente escapou de um tremendo problema.

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