Salve-se quem puder

Medidas protecionistas anunciadas pelo presidente Donald Trump enfrentam reações muito fortes dentro e fora dos EUA

Rubens Barbosa*, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 23h10

As medidas protecionistas em relação ao aço e ao alumínio, anunciadas pelo presidente Trump, foram tomadas pensando na política interna e na reeleição. Nos estudos elaborados para justificar a decisão e ao longo de todo o processo decisório, prevaleceu a narrativa política de colocar os EUA em primeiro lugar, de proteger o emprego e as indústrias ultrapassadas, com a desculpa de ameaças à segurança nacional. Considerações de política exterior ou de preocupação com a crise no sistema multilateral de comércio, com o enfraquecimento ainda maior da OMC, e a perspectiva de uma possível guerra comercial não foram levadas em conta. México e Canadá ficarão de fora, se as negociações de mudanças no Nafta satisfizerem os EUA. Com outros países negociações serão caso a caso.

As reações foram muito fortes dentro e fora dos EUA. No Partido Republicano, centenas de parlamentares preparam legislação para anular a decisão de Trump, não só por questões ideológicas (o partido é a favor do livre-comércio), mas também porque há pressão dos consumidores e das empresas que processam o aço e o alumínio importado. No exterior, os pronunciamentos públicos das principais lideranças europeias e asiáticas indicam a decisão de recorrer ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC ou de retaliação contra produtos norte-americanos. Se essas medidas protecionistas forem levadas à OMC, os EUA deverão ser derrotados e, nesse caso, existe o risco concreto de os EUA saírem da Organização, verdadeira bomba atômica no sistema multilateral de comércio. Todos sairão perdendo.

O Brasil, um dos países mais afetados pelas medidas, sofrerá uma dupla ameaça: perder por alguns anos o mercado americano, o principal destino das exportações de aço, e se transformar em atrativo mercado para produtos europeus e asiáticos desviados dos EUA. Em ambos os casos, haverá forte pressão sobre as siderúrgicas nacionais. O governo brasileiro reagiu informando que levará a questão para a OMC e continuará a buscar exclusão de produtos brasileiros utilizados como insumos pelas empresas dos EUA.

Seria lamentável se esse episódio fizesse recrudescer o protecionismo global, inclusive no Brasil, para a defesa dos mercados internos.

* PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR

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