Samoa pula 1 dia para se alinhar à China

Situada a quilômetros da linha internacional que divide datas, país havia optado no século 19 a seguir os EUA, mas agora quer se aproximar dos chineses

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h06

Na quinta-feira, os habitantes de Samoa foram dormir com uma promessa: quando acordassem no dia seguinte, não seria mais sexta-feira, dia 30. Mas sábado, dia 31. O salto para o futuro não era apenas uma manobra do calendário e não tinha nenhuma relação com a economia de energia.

A meta é a de aproximar a ilha à realidade e horários que operam na emergente China, e não nos Estados Unidos, como era o caso até agora. Se muitos países têm tomado decisões importantes para passar a reconhecer a prioridade que dão às relações com Pequim, a medida adotada por Samoa é vista como uma das transformações mais radicais até agora.

Samoa está situada a poucos quilômetros da linha internacional da data, quase na mesma distância que o Havaí está da marca que estabelece o começo do dia no calendário do planeta. Tratava-se do último país a oficialmente viver as 24 horas de um dia do calendário. Mas isso implicava que estava a 5 horas apenas de diferença de horário com a Casa Branca em Washington. Em relação Pequim, a diferença era de 18 horas.

A linha foi estabelecida em 1884. Naquele momento, Samoa foi colocada do lado asiático da linha, iniciando o dia ao lado de Fiji e outras ilhas da região. Mas no fim do século 19, o governo local tomou a decisão de passar para o outro lado da linha, ficando em termos de horários mais próximo aos Estados Unidos, país que despontava como nova potência.

Foram comerciantes americanos que convenceram as autoridades locais a mudar de dia, o que ajudaria no comércio com a Califórnia. Para celebrar a mudança, o governo local optou por ter dois dias 4 de julho naquele ano, marcando duas vezes a independência dos Estados Unidos.

Mas com a China se transformando no maior exportador do mundo, segunda economia mundial e principal motor de crescimento do planeta, as autoridades do país com 198 mil habitantes foi de acabar com o "século americano" e passar a olhar para a China e a Ásia como referências.

Outro grande benefício será na relação com Austrália e Nova Zelândia, onde vivem 190 mil pessoas de origem de Samoa. Para se ajustar ao calendário desses dois países, a população de Samoa era obrigada a trabalhar no domingo, que já era segunda-feira na Ásia e Oceania.

Salto. Ontem, sirenes e fogos de artifício marcaram o salto de um dia no calendário. Samoa passa a ficar apenas três horas de diferença de Sydney, será uma das primeiras a comemorar o ano de 2012 e ainda fica no mesmo dia comercial de Pequim.

As autoridades chinesas não perderam a ocasião de marcar o evento, como sinal da crescente influência nos mares do Pacífico Sul, por décadas dominados pelos Estados Unidos. "Samoa perderá o dia 30 de dezembro de 2011. Mas ganhará grandes oportunidades para fazer negócios", escreveu o Diário do Povo, jornal oficial chinês, insinuando a perda de influência dos EUA na região.

Samoa deixa de ser o último lugar do mundo a ver o pôr do sol. Mas um selo comemorativo já está sendo produzido com o lema: "Em direção ao futuro". Já Samoa Americana, território adjacente de Samoa, mas que ainda faz parte dos EUA, optou por não modificar o calendário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.