Sanções à Rússia pioram situação de múltis europeias

Empresas já vendiam menos no país e quadro deve se agravar com as novas sanções comerciais dos Estados Unidos e da Europa

Fernando Nakagawa, correspondente, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h04

LONDRES - Multinacionais europeias começam a exibir mais uma face do problema criado pela crise que envolve a Ucrânia e a Rússia. Antes mesmo das novas sanções da Europa e Estados Unidos, empresas amargaram queda de vendas no mercado russo. De montadoras a empresas de material esportivo, são cada vez mais frequentes os alertas sobre problemas e muitas companhias admitem que, com a nova carga de sanções, o quadro pode piorar na Rússia.

Com a tensão entre Moscou, Kiev, Bruxelas e Washington, a confiança de empresários e consumidores piorou na região nos últimos meses. O pessimismo reduz a demanda, derruba vendas e já prejudica o resultado de filiais russas das multinacionais. O fenômeno visto nos balanços do segundo trimestre é mais um efeito da crise que já afeta as transações financeiras e grandes contratos, como os do setor energético e de defesa.

O impacto é visto em diversos setores. A francesa Renault, por exemplo, anunciou que a venda de veículos na Rússia caiu 8% no primeiro semestre. O desempenho no terceiro principal mercado da marca - atrás da França e Brasil - fez com que as vendas da unidade Eurasia caíssem 7%. "Estamos em uma situação em que é complicado saber quais sanções ainda serão adotadas e qual o impacto dessas ações", disse o executivo sênior da Renault, Jérôme Stoll, na semana passada.

Além da decisão da Europa e EUA de impor barreiras ao setor energético russo, as empresas europeias desse segmento também começam a sofrer. Ainda sem detalhar números, a britânica BP alertou aos investidores que "os lucros na Rússia podem ser atingidos" pelas sanções. A companhia é dona de cerca de 20% da russa Rosneft e tem o governo como principal sócio na petroleira.

Novos planos. Outra petroleira que também emitiu alerta é a francesa Total. A companhia estava em processo de aumento do investimento na russa Novatek com a compra gradual de ações da companhia. O grupo francês, porém, anunciou que a estratégia foi congelada após a queda do avião da Malaysia Airlines. Apesar disso, a Total diz que ainda é muito cedo para projetar o efeito das sanções sobre o resultado da empresa.

Longe das refinarias, o movimento nas lojas e shoppings também sofre. A alemã Adidas anunciou uma mudança expressiva dos planos para a Rússia. "Há riscos crescentes para o sentimento e gastos do consumidor", disse o presidente do grupo, Herbert Hainer, em teleconferência com analistas. Com a incerteza econômica, a empresa cortou pela metade o plano de abrir novas lojas.

Por isso, a Adidas prevê que o lucro cairá cerca de 50 milhões no segundo semestre na Rússia. Diante da expectativa de piora dos resultados no país e também no segmento global de golfe, a empresa cortou a previsão de aumento das vendas mundiais que cresceriam "um dígito alto" para "um dígito de médio a alto" em 2014.

Além das filiais russas de multinacionais que reportam queda das vendas, economistas dizem que grandes exportadores europeus também já sentem os efeitos da crise. A Comissão de Relações Econômicas do Leste Europeu, entidade alemã que estuda a economia da região, estima que a Alemanha já perdeu 2,9 bilhões em exportações para Ucrânia e Rússia e até 25 mil empregos estariam correndo risco de serem fechados.

A consultoria Open Europe concorda com a Comissão de Relações Econômicas do Leste Europeu e acredita que a Alemanha será a principal prejudicada. "A queda dos negócios entre a Europa e a Rússia provavelmente vai doer mais para a Alemanha uma vez que é o país com a maior corrente de comércio com a Rússia", diz a consultoria em análise.

"Isso provavelmente vai ser mais um teste para a capacidade da Alemanha de diversificar suas exportações", diz a Open Europe. Na crise de 2008, o governo alemão foi bem-sucedido nessa estratégia de avançar para novos mercados, o que permitiu sentir menor os efeitos da recessão em vários países ricos.

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