Sergio Moraes/REUTERS
Sergio Moraes/REUTERS
Imagem Gustavo H.B. Franco
Colunista
Gustavo H.B. Franco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sanduíche capital intensivo

Imagem do sanduíche de mortadela com queijo para explicar produção de petróleo foi uma das pérolas da semana

Gustavo H.B. Franco, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2021 | 05h00

A ideia que produzir petróleo seria como fazer um sanduíche de mortadela com queijo foi uma das pérolas dessa semana inesquecível, um autêntico festival do Realismo Fantástico Populista Latino-americano.

A imagem do sanduíche se presta à tese segundo a qual os preços dos derivados de petróleo deveriam ser dados por uma margem em cima dos custos variáveis, todos eles comprados numa padaria comum, queijo, pão francês e mortadela. Segue-se que associar o custo do sanduíche ao preço internacional do petróleo seria uma tolice apenas explicável por uma conspiração alienígena neoliberal.

Mas não foi o presidente quem ofereceu essa narrativa fantasiosa ao País, apesar de que suas ações são totalmente consistentes com a tese. A ideia veio pela esquerda, de onde vieram vários apoios à queda de Roberto Castello Branco. Teve festa no sindicato.

Vale distinguir questões de forma, e de conteúdo nesse assunto do sanduíche, pois, afinal, a imagem, apesar de errada e mal intencionada, é pura poesia.

Na forma, nada contra a ideia de simplificar problemas difíceis, com o uso de imagens e metáforas. São recursos de exposição utilizados com imenso talento por muitos explicadores profissionais, atuando na política, nas redes sociais e no ensino superior. A técnica teve um grande mestre em Donald Trump, mas o Brasil conta com grandes especialistas em explicações simples e erradas, em falas empoladas, palavrosas e difíceis de interromper, compostas por números chutados, Ciência de Facebook e teorias de conspiração. 

No mérito: produzir óleo diesel não é como fazer um sanduíche, a menos que o leitor imagine que a mortadela tenha que ser retirada de 2 mil metros abaixo do fundo do oceano, furando outra camada de 2km de pedra e mais outra de 2 km de sal. E tudo isso com máquinas e tecnologias que custam uma fortuna.

Não é simples saber quanto custa essa mortadela de águas profundas e como é que isso entra no custo do sanduíche. Talvez por isso mesmo a regra consagrada internacionalmente para a fixação dos preços para os derivados do petróleo, consista em seguir o preço internacional do petróleo, e não o custo histórico do sanduíche, mesmo com o preço certo para essa mortadela do fundo do mar.

Nos últimos tempos se convencionou designar as melhores práticas internacionais como ‘a recomendação da Ciência’. Pois é.

Para entender a funcionalidade da regra de paridade com o preço internacional basta imaginar o que se passa quando ela não é praticada. Se o sanduíche for colocado à venda, dentro de casa, por preço acima do internacional, as pessoas vão comprar do exterior, simples assim.

A importação serve para proteger o consumidor dos excessos do monopolista.

Se a empresa praticar preços abaixo do mercado internacional, o incentivo é para a exportação do sanduíche, desabastecendo o mercado interno e fazendo um troco em cima da Petrobrás. O exemplo clássico é de outro setor: subsídio na energia elétrica fazia o Brasil exportar muito alumínio: sobrava dólar e faltava luz.

O subsídio (no diesel, por exemplo) funciona como uma promoção: todo mundo compra e fica estimulado o uso excessivo de coisas que usam intensivamente a coisa subsidiada, tipo caminhões. 

Dê um subsídio para o diesel, as pessoas vão se entupir de comprar caminhões movidos a diesel, ainda mais se o BNDES criar um outro subsídio para a compra de caminhões a diesel, e aí, em alguns anos, teremos criado um excesso de oferta de capacidade de transporte de carga, um derretimento do frete e uma categoria propensa a greves periódicas, que o governo resolve com ... outro subsídio. 

É claro que foi um erro terrível mexer no comando da Petrobrás e arrumar uma encrenca com o “mercado”. Mas o presidente da República parece gostar de atravessar a rua para arrumar uma briga errada. Muito claramente, foi uma pulada de cerca no casamento arranjado, e já meio desmoralizado, com a agenda liberal. Como é comum nesses casos, o culpado compra presentes de compensação: MP da Eletrobrás, PL dos Correios e promessas que nada vai mudar na paridade de preços. Mas tudo indica que são joias falsas.

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.