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Sangue latino

Para promover o comércio intrarregional, é preciso que o setor privado queira fazer isso

Monica de Bolle, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2017 | 05h00

“Rompi tratados 

Traí os ritos”

Nei Matogrosso, Sangue Latino

Espanta a profusão de artigos e relatórios sobre a integração latino-americana na era Trump. O tema é para lá de batido: há décadas se discute essa relação tão complicada entre vizinhos, apesar da proliferação de acordos de livre-comércio e de preferência comercial na região. Há cerca de 33 acordos desse tipo na América Latina, cobrindo uns 80% do comércio intrarregional. As tarifas sobre produtos importados caíram substancialmente nos últimos 20 anos. Contudo, quando se analisa os fluxos de exportações e importações na América Latina, e em especial em blocos como o desgastado Mercosul, o que se constata é que acordos não movem moinhos. A região continua terrivelmente isolada de si.

Tentativa de consertar desacertos está em andamento. Na última semana, reuniram-se ministros e delegações em Buenos Aires, ministros e delegações representantes da Aliança do Pacífico e do Mercosul. A Aliança do Pacífico é o bloco que reúne México, Chile, Peru e Colômbia, criado em 2012, tendo harmonizado todos os acordos bilaterais preexistentes em novembro de 2016. O Mercosul, como se sabe, é a união aduaneira entre Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Venezuela – país recentemente suspenso do bloco, e possivelmente próximo de ser expulso, dadas as investidas autoritárias de Nicolás Maduro contra as instituições de seu país. O Mercosul sempre foi marcado por tratados rompidos e ritos traídos devido às convulsões políticas e econômicas das duas principais economias do bloco. Dizem os governos de Argentina e Brasil que isso está prestes a mudar.

Brasil e Argentina querem aproximar-se da Aliança do Pacífico, em particular, do México. Diz o México que quer o mesmo, embora o compromisso do país com seus pares latino-americanos esteja cercado de dúvidas. Em meio à enorme incerteza que cerca a renegociação do Nafta – o tratado de livre-comércio entre EUA, Canadá e México que Trump tanto desancou durante a campanha – é possível que a postura mexicana em relação à dupla do Mercosul seja nada mais do que estratégia para alavancar as negociações com os EUA, que não prometem ser fáceis. Em particular, o México já sinalizou que, se os negociadores de Trump demandarem concessões inaceitáveis, o país passará a comprar produtos agrícolas do Mercosul. O México é o terceiro maior mercado mundial para a agricultura americana, e a ameaça tem deixado empresas e Estados rurais em alerta. Os Estados rurais potencialmente mais afetados por uma guinada mexicana em direção ao sul seriam alguns dos que elegeram Trump de lavada.

A profusão de análises sobre a aproximação Mercosul-Aliança argumenta – corretamente – que o elo principal para avançar é a relação Brasil-México. Os dois países assinaram um acordo em 2003, mas jamais houve qualquer progresso significativo. Em 2015, Brasil e México prometeram avançar no aprofundamento do acordo, algo que hoje pode ter maiores chances de acontecer, sobretudo com as dúvidas que cercam o Nafta. Porém, é bom lembrar que, para tanto, precisaria o Brasil estar disposto a remover os entraves não tarifários que tanto prejudicam o comércio. São muitos – de dificuldades aduaneiras a regras sanitárias, de regulações divergentes a regras de conteúdo local. Isso sem falar nos serviços, nas compras governamentais, nos padrões para a proteção dos trabalhadores e do meio ambiente, todas áreas em que o México, veterano de acordos, está em pleno século XXI, enquanto o Brasil continua preso ao século XX.

Ainda que os governos queiram de fato promover o comércio intrarregional, é preciso que o setor privado brasileiro queira o mesmo. Que pare de querer seguir sozinho, de achar que os ventos do norte não movem moinhos. Também é preciso que as reformas brasileiras sigam seu curso, sobretudo a reforma do sistema financeiro. A segmentação do nosso mercado de crédito, os elevadíssimos spreads e taxas de juros, são responsáveis por muitas mazelas, inclusive pela dificuldade de dar condições adequadas para o surgimento de um setor exportador dinâmico em áreas diversas, não apenas o agronegócio – mas isso é tema para outro artigo.

Por enquanto, o que importa é não estar vencido.

*Economista, é pesquisadora do Peterson Institute For International Economics e professora da Sais/Johs Hopkins University

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