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Claudio Adilson Gonçalez
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‘São bons empregos, estúpido’

Nenhuma nação logrou alcançar a prosperidade só pela redistribuição de renda por mecanismos tributários

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

O título deste artigo é tradução literal do nome escolhido pelo consagrado economista Daron Acemoglu, do MIT, para um de seus últimos e mais instigantes textos: It’s Good Jobs, Stupid, no original em inglês. Sua preocupação central é entender o crescimento da desigualdade nos países desenvolvidos e sugerir medidas para combatê-la. Claro, o problema da desigualdade também é de grande importância para países emergentes como o Brasil.

Para Acemoglu, a redução das desigualdades (e da pobreza) depende da criação de bons empregos, ou seja, trabalhos formais bem remunerados e de alta produtividade. No desenvolvimento de suas ideias, aborda um ponto polêmico. Para ele, a instituição do salário mínimo e a atuação dos sindicatos exerceram papel importante na Europa e nos EUA do pós-guerra, ao forçar as empresas a procurarem tecnologias mais produtivas. Com isso, cresceu a produtividade, acelerou-se o desenvolvimento econômico e surgiram bons empregos. Não é o que vem acontecendo nas últimas três ou quatro décadas, tanto nas economias desenvolvidas como nas emergentes. Para alguns autores, como Lawrence Summers, a desigualdade, além de ser um problema social, tem inibido o próprio crescimento econômico.

A resposta usual para esse problema é que o mercado é amplamente eficiente, mas injusto. Isso significa que a mão invisível aloca os recursos onde estes são mais produtivos, cria novas tecnologias e acende as chamas do empreendedorismo, mas não lida bem com as questões da desigualdade e da pobreza. Se é assim, segue o raciocínio, deve-se deixar o mercado fazer sua parte e usar a tributação para transferir renda dos mais ricos para os mais pobres. Acemoglu e este modesto colunista não concordam com essa visão, por duas razões.

A primeira é que a redistribuição por mecanismos tributários tem sido ineficaz em grande parte do mundo. Nenhuma nação logrou alcançar a prosperidade por esse caminho. Em vez disso, o desenvolvimento compartilhado geralmente resulta da capacidade das sociedades de criar “mercados inclusivos”, que forneçam condições equitativas para as pessoas ascenderem econômica e socialmente. E isso depende de bons empregos.

A segunda é que os mercados, especialmente na era de crescimento da automação e da globalização, têm se mostrado ineficientes para a criação de bons empregos. A tecnologia caminha no sentido de usar a inteligência artificial para substituir o uso de mão de obra, destruindo postos de trabalho. A globalização tem aumentado a oferta de mão de obra barata, reduzindo o poder de barganha dos empregados com seus empregadores. A concentração econômica em empresas gigantescas, no lugar do mundo competitivo dos manuais dos economistas neoclássicos, agrava ainda mais esse problema.

No entanto, não é verdadeiro que o crescimento da desigualdade é consequência inevitável da automação e da globalização. O avanço da tecnologia da informação e da inteligência artificial pode ser usado para a criação, não para a destruição, de bons empregos. Por exemplo, o ensino a distância pode concorrer para a melhor qualificação da mão de obra a custos menores. Retreinamento e requalificação de pessoas que perderam seus empregos em virtude das novas tecnologias também são fundamentais.

É neste ponto que a atuação das políticas públicas ganha importância para corrigir as falhas de mercado que têm inibido a criação de bons empregos. Mais do que nunca é necessário melhorar a qualidade de ensino, adequando a formação escolar para desenvolver habilidades nos estudantes compatíveis com o mundo de alta tecnologia e de constante mutação na demanda de mão de obra. Da mesma forma, cabe ao governo dar apoio a pesquisas e inovações que usem a tecnologia para criar bons empregos.

Se deixarmos este tema fora da agenda governamental, aí, sim, agiremos como estúpidos.

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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