Tiago Queiroz/Estadão
Luiz Pereira, caseiro de um clube no Rio das Velhas, espera a chuva para retirar os barcos Tiago Queiroz/Estadão

São Francisco seca e ameaça agricultura em cidades de Minas

Situação do maior rio 100% nacional é crítica e baixo volume de água traz riscos a produtores; no norte do Estado, perdas chegam a R$ 1 bilhão

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 19h00


Desde julho, uma situação inusitada ameaça os 21 produtores de frutas do Projeto Pirapora, em Minas Gerais, referência por ter sido em 1975 a primeira experiência de irrigação com as águas do São Francisco em Minas Gerais. O rio começou a baixar rapidamente. E baixou tanto que o local da captação de água foi invadido pela areia.

Desesperado, Nadson Martins, gerente do projeto, fez uma gambiarra. Arrumou uma escavadeira, rasgou o leito do rio, abriu um canal e pediu emprestadas bombas flutuantes para jogar água no encanamento do sistema de irrigação. “Sem a água do São Francisco, o projeto não existe: se não chover logo, podemos passar a chave no portão e ir embora.”

Entre os rios 100% brasileiros - que nascem e deságuam dentro das fronteiras do País -, o maior é o São Francisco. A sua bacia hidrográfica ocupa 7,5% do País. Está presente em 521 municípios, quase 10% do total nacional. No entanto, apesar do porte e da tradição de resistência às intempéries climáticas, nem ele suporta a estiagem.

A reportagem percorreu 1,7 mil km de estradas - metade delas de terra beirando o São Francisco - para ver de perto a situação do rio. O trecho escolhido foi o chamado Alto São Francisco, em Minas. Pelo caminho, encontrou plantações de café e eucalipto amarelando, gado magérrimo em busca de abrigo sob árvores sem folhas, fazendas com pivôs de irrigação desligados e a terra nua à espera da chuva para o plantio. Junto ao rio, o que mais se avista é o seu fundo, que emergiu criando ilhas, ora de pedras, ora de areia. Em outros pontos, abriram-se poças. Lá os peixes são presas fáceis para a pesca, a essa altura já considerada predatória, dada a facilidade com que cardumes inteiros são capturados.

Segundo cálculos da Emater de Montes Claros, o norte de Minas contabiliza R$ 1 bilhão de perdas com a seca nos últimos anos. Cabeças de gado, no total de um milhão, morreram ou foram vendidas a outras regiões para não morrerem de sede. Cerca de 80% das safras de arroz e feijão se perderam.

Espera. Quem mais sofre são os pequenos produtores, como Maria Rodrigues da Silva, 48 anos. Ela tem um terreno na ilha Maria Preta, em Itacarambi, já perto da Bahia. Cultiva feijão, milho, mandioca, melão, melancia e caxixe - como ela define, planta que dá um fruto “cascudo como a abóbora”. Apesar de a propriedade estar bem no meio do rio, não vai plantar. “A terra já está limpinha, mas sem a água da chuva, não nasce”, diz Maria.

Produtores que contam com uma estrutura mais sofisticada também estão preocupados. Em todo o São Francisco há nove polos de irrigação, que geram uma receita anual de quase R$ 2 bilhões. Todos têm restrição de água. Na margem oposta à de Maria está o Projeto Jaíba, um dos maiores empreendimentos irrigados da América Latina. Nos seus 25 mil hectares estão 2,1 mil produtores. O Jaíba já sofreu uma redução de 25% no fornecimento de água.

Lá Romeu Dias dos Santos, 58 anos, diz que, em último caso, seus limoeiros sobrevivem um ano sem água. “Não dão frutos, mas o pé fica”, diz, caminhando entre suas árvores ainda verdinhas. Dailton dos Santos Ferreira, gerente da Brasnica, a maior produtora de bananas do País, que abastece grandes redes como Pão de Açúcar e Walmart, não tem a mesma serenidade. “Tentamos perfurar seis poços artesianos, mas não fomos felizes: até o lençol freático caiu. Não temos mais o que fazer e se a água baixar mais, acabou.”


Afluentes. O volume de água de Pirapora a Jaíba é regulado pela vazão da represa da Hidrelétrica de Três Marias, que funciona como uma caixa d’água. Como o Estado mostrou na edição de domingo passado, o seu nível é crítico. A tendência é que a vazão seja reduzida.

Em outros tempos, o rio a partir dali era suprido por afluentes, mas até eles estão secando. No Rio das Velhas, há uma cena espantosa. Como a água está secando, uma dezena de barcos de um clube náutico está ancorada na areia. “Nem compensa tentar puxar agora porque não tem água para eles navegarem”, diz Luiz Pereira de Oliveira, 64 anos, caseiro do clube.

A seca no rio ainda complica a logística. Interrompeu o tráfego na hidrovia que seguia até a Bahia e agora paralisa balsas que interligam as margens direita e esquerda do rio.

Na sexta-feira, 10 de outubro, uma das balsas do Transporte Moura, na cidade de São Francisco, encalhou às 5h da manhã. Oito carros, uma moto e um caminhão baú passaram o dia sob o sol ardido. Detalhe: o caminhão estava vazio. Cruzava o rio para carregar 1,3 mil caixas de frutas colhidas na margem oposta. Os 25 passageiros insistiram em não abandonar os veículos. Na parte da manhã, o único resgatado foi Scooby, vira-lata que usa a balsa para a travessia. Foram necessárias 13 horas de trabalho e três escavadeiras para puxar a balsa por cabos de aço. No domingo passado, o serviço de translado foi suspenso.

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Volume de água do São Francisco é o pior desde o início das medições, há 83 anos

Estiagem dos últimos três anos seca o rio São Francisco a partir de sua nascente, ao norte de Minas Gerais

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 19h07

No sexto e último dia da viagem pelo Rio São Francisco, a reportagem do Estado encontrou nas margens da cidade de Itacarambi, não muito longe da divisa de Minas com a Bahia, o lavrador Joaquim Dourado de Almeida, 46 anos. Ele havia estacionado a sua carroça, puxada pelo casal de burros Pretinha e Gostosão, sobre um dos tantos bancos de areia que estão emergindo do rio à medida que a água baixa. A quem quisesse ouvir, pregava: “Está na Bíblia que seria assim: tudo isso vai secar.”

A crença popular inventa histórias. Exagera no trato de fatos reais. Porém, nessa questão em particular, o lavrador Almeida, à sua maneira, fez um alerta relevante. O volume de água do rio - tecnicamente chamado de vazão - tem caído no São Francisco. A baixa está em relatórios estatísticos e fica clara quando se estuda o volume de água despejado no rio pelas represas das usinas. Na hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, por exemplo, o volume devolvido ao rio caiu 23% na comparação da média dos anos entre 1931 e 1992 com a média entre 1993 e 2012.

Não se pode dizer com certeza a causa: se pelo uso da água para abastecimento de uma população crescente, pela irrigação - a autorizada e a clandestina - ou pela terra que desliza das encostas desmatadas.

Quando se olha o estado de degradação do rio, a sensação é que ele é vítima de tudo isso ao mesmo tempo. A estiagem dos últimos três anos é um agravante: acentua a evaporação nos seis Estados por onde passa. O rio corre hoje com 49 metros cúbicos de água por segundo (m³/s). Trata-se do pior volume nos 83 anos de medição em seu leito e uma fração do volume normal, que é de 2,8 mil m³/s.

Sem paralelo. Os mineiros, especialmente os que vivem no norte do Estado, estão alarmados com os efeitos da estiagem no rio. Quem bem sintetiza a dimensão do estranhamento que tomou conta das pessoas é a empresária Janice Fiúza Figueira. A dona Nini, como é conhecida na cidade que leva o mesmo nome do rio, São Francisco, tem 80 anos e está impressionada: “Os antigos, quando eu era criança, falavam de uma seca que deixou o rio coberto de areia. Eu mesma nunca tinha visto nada assim”.

Com a água se esvaindo, um cenário de desolação se instala. Não há trecho que escape.

Início. Em São Roque de Minas, quase ao sul do Estado, a nascente no Parque Nacional da Serra da Canastra secou. O ponto de partida do São Francisco não é um único veio de água, mas a reunião de vários nascedouros que se encontram para formar um córrego. A primeira nascente, mais robusta, que desce de uma serra, secou no fim de setembro pela primeira vez. O fenômeno foi um duro golpe no meio ambiente combalido. Entre julho e agosto, um incêndio consumiu 70% da vegetação nativa do parque. O silêncio na reserva, as árvores carbonizadas, as cinzas na vegetação rasteira e o ir e vir assustado de animais raros - do lobo-guará, do tamanduá-bandeira, do gavião do Chile - dão mais dramaticidade à nascente seca.

A 150 km dali, em Iguatama, que se autointitula primeira cidade banhada pelo São Francisco, a cena é estarrecedora. No alto da ponte que corta o rio há uma imensa carranca - careta simbólica, esculpida em madeira, que é colocada nos barcos do São Francisco para espantar os maus espíritos da natureza.

Sob a ponte, porém, percebe-se que o amuleto de pouco adiantou. O rio se transformou numa extensa poça barrenta, intercalada por ilhas de terra, lixo e galhos secos. Na tarde de quarta-feira, 8 de outubro, depois de ver uma foto do local no Facebook, o funcionário público Enilson Antônio da Silva, 49 anos, dirigiu 40 minutos de Lagoa da Prata, onde mora, à ponte de Iguatama. Lá, ficou perambulando, atônito. “Pensei que fosse montagem de computador e quis ver com meus olhos”, disse. “Como pode um rio desse tamanho ficar assim?”

Um dos cenários mais impressionantes fica escondido na estrada de terra que liga os municípios de São Francisco, Pedra de Maria da Cruz e Januária, no extremo norte. Nas margens da estrada há uma floresta de árvores totalmente secas. Não há uma gota de água sob as pontes, incluindo na do Córrego Arrozal, afluente do São Francisco. O córrego virou estrada. “Ele é perene, nunca secou”, diz o agricultor João Gonçalo da Silva, o João Novelo, 56 anos. “Se não fossem as cisternas, a criação morreria de sede.”

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Estiagem que se espalha por vários Estados já causa prejuízos bilionários

Série 'Caminhos da Seca' mostra como a falta de chuvas afeta importantes bacias hidrográficas e a economia

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 19h05

Há uma regra elementar que se aplica em períodos de secas severas: se a água escassear, a prioridade é o consumo humano. Isso significa que, antes de as torneiras de casa secarem, a água falta na agropecuária, nas indústrias e nos serviços. É o que ocorre hoje em várias partes do Brasil.

A estiagem que compromete importantes bacias hidrográficas pode prejudicar a já combalida economia nacional, simplesmente porque o País não está preparado para lidar com ela. “Diferentemente de outros países, o Brasil não tem mecanismos para aliviar perdas econômicas com a falta de água”, diz Jerson Kelman, especialista no tema, que dirigiu as agências nacionais de Água e de Energia. 

Prejuízos. A seca começou espalhando prejuízos no Nordeste. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), entidade que monitora eventos climáticos extremos, a região sofreu perdas de R$ 20 bilhões entre 2010 e 2013. No setor de energia, a conta é maior. Só para manter as térmicas ligadas e compensar a falta de água nas hidrelétricas, de 1.º de janeiro de 2011 até 14 de outubro deste ano foram gastos R$ 49,4 bilhões. O cálculo é da consultoria PSR, com dados do Operador Nacional do Sistema. 

Neste ano, a estiagem se espalha pelo Sudeste. Segundo levantamento da consultoria MB Agro, os produtores de cana-de-açúcar, carro chefe da agricultura paulista, amargam uma perda de 18% na receita. “O problema é sério e vai afetar a economia de várias cidades”, diz José Carlos Hausknecht, sócio da MB. No Centro-Oeste, o produtor ainda aguarda a chuva, que atrasou, para semear. 

Para mostrar de perto os efeitos dessa estiagem histórica sobre os rios e a economia que eles irrigam, o Estado inicia hoje a série Caminhos da Seca. O primeiro rio visitado é o São Francisco, o Velho Chico. 

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