São Judas, o esteio em época de crise

Santo dos desesperados é procurado

Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

Quarta-feira de chuva na Paulicéia. Cerca de 50 mil pessoas enfrentaram o mau tempo para visitar o Santuário São Judas Tadeu, na zona sul de São Paulo. Todo dia 28 o santo é celebrado. Este 28 de janeiro foi de mais movimento que os meses anteriores.Conhecido como o santo dos desesperados, a fé em São Judas é uma alternativa para quem sofre com a crise que abala os empregos. As missas são celebradas de hora em hora e 10 padres se revezam nas celebrações. Há ainda quem enfrente a fila para passar por uma sala atrás do altar e deixar ali, aos pés do santo, seus pedidos e agradecimentos. Na igreja lotada, muitos carregam flores. Alguns empunham velas de quase dois metros de comprimento. Outros entram pelo corredor central de joelhos. Há ainda quem não desgrude da carteira de trabalho enquanto pede a São Judas uma ajudinha para conseguir um emprego.Padre Augusto César Pereira já viu muitas crises na economia. E é sempre assim. Quando a economia vai mal muita gente procura a religião como um esteio. "Muitos não sabem como reagir diante de uma situação tão grave e querem se aconselhar", diz.A costureira aposentada Natalina Barbosa Leme, 61 anos, casada e mãe de dois filhos, saiu cedo de São Bernardo (ABC paulista), onde mora, com a carteira de trabalho da caçula Daniela. A jovem está desempregada há um ano e acaba de se formar em Direito. Há quatro anos Natalina pediu para que o filho conseguisse um emprego. Uma semana depois, segundo ela, o pedido foi atendido. Maria de Jesus também foi à igreja pedir ajuda para o filho, desempregado desde julho do ano passado. "Que São Judas interceda junto a Deus para que meu filho chegue lá", diz a fiel.Devota do santo, a manicure Maria Aparecida Bernardes vai ao santuário todo dia 28. Já pediu ajuda para a família e sempre que pode leva a carteira de trabalho de algum vizinho. "Hoje vim agradecer o trabalho que o meu filho tem. É preciso se apegar à fé. É a única forma de passar pelos momentos difíceis, como o vemos agora com tanto desemprego", relata.Alarmado com as estatísticas sobre o desemprego, padre Augusto é um crítico da proposta da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que defende a redução da jornada de trabalho e do salário para manter os empregos. "O capitalismo é condenável a medida que explora a pessoa. Quando não precisa mais, é só descartar. Desemprego? Redução do salário? Isso prova que não há a menor sensibilidade humana para com a desgraça dos desempregados", analisa.Padre Augusto revela o lado bom do atual momento da economia: a possibilidade de a igreja aumentar a base de praticantes. "Quando a economia vai bem as pessoas se afastam de Deus. São vários os casos de gente que está longe da igreja há décadas e, quando volta, diz ?naquela época eu tinha tudo, não precisava de Deus?".

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