São Paulo contra o crime

Assassinatos e latrocínios impactam seguros de vida e de acidentes pessoais; roubos e furtos são responsáveis pelo alto custo dos seguros de automóveis

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2015 | 03h00

Faz tempo que o Estado de São Paulo consegue regularmente vitórias importantes contra o crime. Os números divulgados pelo governo estadual, referentes ao primeiro semestre de 2015, dão conta da queda dos latrocínios, assassinatos, estupros, roubos, furtos e roubos de veículos, em comparação com o mesmo período do ano passado. O que isto tem a ver com seguro? Tudo.

Assassinatos e latrocínios impactam os seguros de vida e acidentes pessoais. Roubos e furtos impactam os seguros patrimoniais. E os roubos e furtos de veículos são os principais responsáveis pelo alto custo do seguro de automóveis. Isso para ficar apenas nos ramos mais conhecidos.

Portanto, se a notícia é boa para todos, é particularmente boa para o setor de seguros. Quanto mais o Estado for eficiente nas políticas de combate ao crime, melhores as condições de vida da população e menores os custos sociais decorrentes da violência. Em outras palavras, em algum momento, a adoção de políticas bem sucedidas de combate ao crime terá impacto no preço dos seguros.

Repercussão. Apesar de verdadeira, esta afirmação não modifica o quadro do dia para a noite. O custo de um seguro é consequência de uma série de variáveis, e o resultado não depende de um único fator. O fato de São Paulo conseguir resultados importantes no combate ao crime é prejudicado pelo aumento da criminalidade em outros Estados. Como a maioria das seguradoras opera em todo o país, suas carteiras são afetadas pelos resultados positivos e negativos de cada Estado, de forma proporcional à sua atuação.

Seguradoras mais focadas em São Paulo estão sentindo a redução do índice de roubos de carros em função de ações como a Lei dos Desmanches, votada primeiro pela Assembleia Legislativa paulista e só depois pelo Congresso Nacional, o que faz com que ainda não produza efeito positivo nas outras regiões brasileiras.

Como o seguro de veículos é suportado por um fundo composto por todos os seguros comercializados pela seguradora, os resultados positivos alcançados especificamente por São Paulo são insuficientes para compensar as perdas decorrentes dos roubos e furtos nos outros Estados, não havendo como reduzir o preço dos seguros de automóveis feitos em São Paulo, pelo menos por enquanto.

Outras variáveis. Mas o preço do seguro de automóveis tem outras variáveis, entre elas, as perdas com acidentes. E aí São Paulo, ainda que tendo as melhores rodovias e os menores índices de acidentes em estradas, sofre com o fato de ter a maior frota segurada, o que aumenta o custo total das indenizações e impede a redução do preço das apólices.

Além disso, a crise brasileira é inimiga da redução do preço dos seguros. Muito embora os juros altos sejam forte aliado das seguradoras, já que permitem a remuneração positiva do dinheiro investido, a inflação cobra seu preço porque tem impacto direto na geração de poupança e na comercialização de novas apólices.

Como se não bastasse, o aumento do desemprego é inimigo direto da redução da criminalidade. Além de golpes de todos os tipos, visando levar vantagem nas relações de seguros, o desemprego incentiva os crimes por necessidade, que, apesar de normalmente não serem violentos, também impactam os índices da segurança pública e, consequentemente, o resultado das seguradoras.

Isto posto, falar em redução do preço do seguro porque o Estado de São Paulo está tendo sucesso no combate ao crime é prematuro. Existem outras ameaças concretas sobre a sociedade brasileira. As crises econômica, política e moral que assolam o país nos próximos meses irão custar muito caro para a sociedade brasileira, com consequências inimagináveis neste momento.

São Paulo tem índices de combate ao crime muito melhores do que a maioria do Brasil. Se, em números absolutos, o total de assassinatos é o maior do país, proporcionalmente, comparado com a população, ele é menor do que o do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul ou Paraná. Isto mostra que o Estado faz a lição de casa com competência. Agora, falta o Brasil começar a fazer.

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA, SECRETÁRIO GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E COMENTARISTA DA ‘RÁDIO ESTADÃO’

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