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São Sebastião de joelhos

Já são quase três anos de tentativas de recuperação do Rio; todas elas frustradas

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 05h51

Ruy Castro, em seu Carnaval de Fogo, retrata uma cidade excitante, um Rio de Janeiro que não se cansa de nos surpreender. Com uma baía abraçada pelo Pão de Açúcar, um Cristo Redentor olhando por nós de cima do morro e a floresta da Tijuca teimando em viver, de fato há que se concordar: a cidade é maravilhosa.

Mas, ao contrário do passado, quando o Rio ditava moda, antecipava tendências, mostrava ao Brasil a malandragem do samba e a suavidade da bossa nova, hoje ele escancara as nossas feridas. As feridas de um país de joelhos e impotente frente ao descalabro e ao descaso que tomaram conta da gestão e do patrimônio públicos, destruindo o nosso passado e comprometendo nosso futuro.

A derrocada do Rio tem sabor de corrupção, com os desmandos de um ex-governador que conseguiu ludibriar a todos com um discurso de austeridade, eficiência e gestão. Na verdade, ele apenas se locupletava com dinheiro público, assaltando o cidadão fluminense à luz do dia e com uma voracidade compulsiva. Mas não foi isso que quebrou o Rio – e isso não torna a corrupção menos deplorável. Mas foram gestões irresponsáveis e populistas, uma após a outra, embriagadas na ilusão do petróleo, que hipotecaram o futuro para garantir a alegria do presente. Elas rifaram o Rio, apostando na exuberância e na arrogância dos que vivem sem limites. O fim desse caminho sem culpa não poderia ser diferente: o desequilíbrio fiscal e a falência do Estado recaindo sem piedade sobre uma população sofrida e desesperançada.

Mas veio a Olimpíada e a cidade maravilhosa, já enterrada no caos econômico e à beira do caos social, se orgulhou do belo espetáculo que mostrou ao mundo – escondendo com trapos verdes e outros amarelos as vísceras expostas de um Estado que já não conseguia garantir nem sequer o básico para a sua população.

Ao fim de 2015, o Rio já agonizava. Nos hospitais estaduais faltavam médicos, remédios e pessoas morriam nas imensas filas. Aposentados já não recebiam, servidores tiveram os salários parcelados e policiais, sem condições de trabalho, morriam dia e noite nas ruas, num triste recorde que vem sendo ano a ano superado. Na UERJ – a universidade estadual que se transformou em um dos tantos símbolos da falência carioca –, alunos protestavam exigindo o pagamento de suas bolsas, sem imaginar o tamanho da lista de prioridades não atendidas antes das suas.

Uma primeira tentativa de ajuste foi lançada em 2016, mas já ali o corporativismo e a miopia conseguiram barrar no nascedouro o que poderia ter sido o início do debate sobre a falência do Rio. Depois de outras iniciativas propostas pelo governador Pezão, e novamente frustradas pela alienação do legislativo local, no início de 2018, assim como veio a intervenção federal na segurança, veio também o Regime de Recuperação Fiscal, uma boia tardia que tenta salvar o Rio no meio de um tsunami.

Já são quase três anos de tentativas de recuperação. Todas elas frustradas por homens e mulheres que se dizem públicos, mas que continuam de costas para a população, fixados em algum espelho narcísico que só lhes atende em seus desejos, mantendo e ampliando privilégios e vícios que violentam um Rio cada dia mais miserável. Na sua última – e certamente não derradeira - afronta, a Alerj aprovou aumento para o funcionalismo público. Vetado pelo governador, derrubaram o veto, ignorando a realidade de um Estado falido, vilipendiado, assaltado.

Como se precisássemos de algo mais, no último domingo as chamas no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista trouxeram tristeza e choque e mostraram a dimensão do descaso no Rio. Descaso cuja raiz é a mesma que permitiu que o BNDES, no mesmo Rio, emprestasse bilhões a Cuba, Equador, Venezuela, mas não os R$ 21 milhões necessários para preservar a nossa memória.

Esse incêndio é o reflexo da falência das nossas instituições em proteger o cidadão contra o corporativismo, os privilégios e a captura do Estado. Ao ver o museu ardendo, os carros pipa sem água, as pessoas chocadas, não há como não pensar nos tais mulheres e homens públicos, todos sócios nessa tragédia. O Rio hoje é um São Sebastião não só flechado, mas também de joelhos. E desta vez, nesse carnaval de fogo, o épico não acabou em samba, mas sim em cinzas e lágrimas.

* ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

 

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