Lindsay D'Addato/The New York Times
Lindsay D'Addato/The New York Times

São tempos terríveis para as pequenas empresas, mas não para todas elas

Houve uma explosão no número de novas startups; mas não se sabe até que ponto essa alta pode ser atribuída a empreendedores que encontraram oportunidades em meio à crise ou a pessoas que perderam o emprego e abriram o próprio negócio

Kerry Hannon, The New York Times

23 de dezembro de 2020 | 07h00

Um inesperado e surpreendente aspecto positivo da pandemia começa a se desenhar: se um grande número de pequenas empresas em todo o território dos Estados Unidos foram esmagadas pela covid-19 e as restrições que a acompanham, outras foram impulsionadas pela crise de saúde.

Houve uma explosão no número de novas startups esse ano, de acordo com o departamento censitário dos EUA. De acordo com dados da agência, até o fim da primeira semana de dezembro, o número de solicitações de abertura de empresas teve alta de 43,3% em relação ao mesmo período de 2019. “Mas ainda não se sabe ao certo até que ponto essa alta pode ser atribuída a empreendedores que encontraram oportunidades em meio à crise, abrindo negócios que devem contratar funcionários, ou a pessoas que perderam o emprego recentemente e abriram o próprio negócio", de acordo com o Economic Innovation Group, organização bipartidária voltada para o desenvolvimento de políticas públicas.

Mas a alta é compensada pelo fato de aproximadamente 28,8% das pequenas empresas terem fechado de vez entre o início do ano e meados de novembro, com base em dados coletados pela organização bipartidária de pesquisa Opportunity Insights, com sede na Universidade Harvard.

Em Nova York, estima-se que um terço das pequenas empresas corram o risco de jamais reabrir, de acordo com um estudo da organização sem fins lucrativos Partnership for New York City.

“A verdade é que ninguém sabe como será o futuro, pois ninguém viu uma sobreposição de crises simultâneas comparável à atual", disse Nathalie Molina Niño, autora de "Leapfrog: The New Revolution for Women Entrepreneurs" e diretora executiva da O³, empresa privada que investe em startups.

“Os empreendedores são sempre otimistas inveterados", disse ela. “E é por isso que, mesmo em meio a uma situação que às vezes lembra um cemitério de pequenas empresas em todo o país, com vitrines e portas fechadas com tapumes por toda parte, os empreendedores seguem abrindo negócios e, em alguns casos, fazendo-os crescer.”

É o que Eric Levitan planeja fazer. Em abril, depois de 25 anos trabalhando com tecnologia e administrando empresas de software, Levitan, 49 anos, fundou em Atlanta a Vivo, um programa de treinos de força para pequenos grupos, voltados para adultos a partir de 55 anos e organizados ao vivo por um profissional certificado. A inspiração para essas aulas, realizadas no Zoom, surgiu quando ele observou os pais, ambos na casa dos 70 anos, sofrendo com questões de mobilidade.

Ele já desenvolvia o conceito há mais de um ano, mas a pandemia o obrigou a reformular a ideia original: treinos de força presenciais nos asilos para idosos. “Por causa da covid, repensamos o modelo para comportar aulas online", disse ele.

Para Levitan, a mudança para um serviço de exercícios físicos online ampliou consideravelmente sua potencial base de clientes. “Agora, não há fronteiras geográficas no caminho: podemos oferecer treinos a pessoas no Brasil, na Califórnia, no Japão, e ter instrutores em todo o mundo.”

Por enquanto, a Vivo, na qual ele investe os próprios recursos — já foram quase US$ 100 mil até o momento —, ainda está nos estágios iniciais, com 50 membros, de idades entre 52 e 85 anos. Os clientes participam de aulas de 45 minutos duas vezes por semana. Mas, com nove instrutores trabalhando, a capacidade do serviço chega a quase mil clientes, de acordo com Levitan.

Outro segmento que atraiu muito mais interesse na pandemia: plantas decorativas. Em agosto, Alexi e Brendan Coffey fundaram a Steward, empresa virtual com sede em Nova York, para ensinar seus clientes a cuidar de plantas.

“Trabalhamos nisso nos últimos dois anos, desenvolvendo a tecnologia do aplicativo, formando uma equipe, testando, e o lançamento estava marcado para o início do segundo trimestre", disse Brendan Coffey, 31 anos. Antes da pandemia, o casal captou US$ 500.000 com investidores-anjos nos estágios iniciais.

“Fomos surpreendidos, adiamos o lançamento e repensamos nosso plano", disse Alexi Coffey, 29 anos. Os Coffeys tinham pensado em um serviço de assinatura digital, somando a uma consultoria comercial de horticultura voltado para escritórios e restaurantes.

“Com o nosso aplicativo, os clientes usam a câmera do celular para digitalizar os cômodos de seus lares, e o sistema cria um mapa mostrando as variações na distribuição da luz, indicando as melhores plantas para cada espaço e como cuidar delas", disse Alexi Coffey. Alguns clientes pediram ajuda para criar paredes verdes que possam mostrar nas reuniões por vídeo na era do home office.

A empresa tem atualmente cerca de 5 mil clientes em todo o mundo. “Fomos beneficiados pelo fato de as pessoas estarem em casa, mais interessadas do que nunca em plantar", disse Alexi Coffey. “O tempo que gastamos plantando e regando os vasos rompe a estranha realidade digital na qual estamos vivemos. Temos a oportunidade de trazer um pouco de alegria para as vidas das pessoas.”

Os picles também têm o poder de produzir felicidade. Em setembro, o sous chef Mark Mammone, 39 anos, e o chef Joe Bardakos, 30 anos, fundaram a Bridge City Brinery em Pittsburgh.

Cinco anos atrás, Mammone começou a fazer picles como um hobby. Sua inspiração era o sauerkraut feito pela sua avó, uma imigrante croata. O segredo? Os pepinos são fermentados em uma salmoura caseira.

“Comecei a presentear meus amigos com picles, e eles diziam: ‘Você devia fazer alguma coisa com eles. Devia vendê-los’”, disse Mammone. “Depois que me acostumei à ideia, decidi que um dia fundaria uma empresa de picles.”

Mas era uma ideia que ele cozinhava em fogo baixo. “Na verdade, foi a pandemia que me fez rever as prioridades", disse ele. Bardakos ofereceu ajuda e daí nasceu uma parceria. “É algo que podemos fazer agora, e podemos controlar", disse Mammone, “sem que isso nos custe muito dinheiro".

“Suportar a incerteza durante a pandemia e o panorama político e econômico que a acompanha é o maior desafio para qualquer empreendedor", disse Sanyin Siang, diretora executiva do Centro de Liderança e Ética Fuqua/Coach K da Universidade Duke e autora de “The Launch Book: Motivational Stories to Launch Your Idea, Business or Next Career".

“A motivação é uma profunda crença na ideia", disse Sanyin. “É essa fé que resulta em um fator atraente para clientes, funcionários e investidores.” E foi exatamente o que os apaixonados por picles fizeram. Financiaram sozinhos o próprio negócio com menos de US $3 mil, e pediram a ajuda de parentes, amigos e o chefe, que lhes permitiu trabalhar na cozinha do restaurante.

O grande desafio foi encontrar insumos, o que atrasou o lançamento em algumas semanas. “Os potes de vidro estavam em falta — parece que, durante a pandemia, todo mundo resolveu guardar sua comida em potes", disse Mammone.

Talvez apostar em setores em declínio pareça ilógico, mas a abordagem pode ter sucesso. Enquanto outros restaurantes fechavam, Suhail Karimi, 35 anos, de Los Gatos, Califórnia, sabia que era hora de perseguir seu sonho.

“Tudo foi vendido às pressas", disse ele. Como resultado, ele comprou a licença para a venda de bebidas alcoólicas e outros componentes do funcionamento do restaurante com um inquilino que operava no local a um valor comparável a aproximadamente metade do cobrado antes da pandemia. Além disso, negociou um aluguel mais barato com o proprietário. Assim, três meses atrás, ele inaugurou seu primeiro restaurante, Eleven College Ave.

“Tem sido um pouco difícil, mas estamos sobrevivendo", disse ele. “Eu sabia no que estava me metendo, sabia que teríamos muitos desafios pela frente para aderir a todas as orientações de saúde.”

O maior desafio é a lotação: “Temos capacidade para até 40 fregueses por vez", disse ele. “Normalmente, o salão acomodaria 140 pessoas.”

O custo da sua startup — cerca de US$ 500 mil — foi financiado pela família. “Foi um risco calculado, sem dúvida", disse ele. “Foram necessárias muitas conversas e muitas peças no lugar para fazer isso dar certo.” / Tradução de Augusto Calil

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