Sarkozy manda polícia liberar refinarias

Com a economia parcialmente paralisada, governo autoriza o uso da força para acabar com bloqueios e reprimir protestos

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Em meio ao confronto violento entre jovens e a polícia e à paralisação parcial da economia do país, o Senado da França deve votar hoje - e aprovar - o projeto de reforma da previdência proposto em maio por Nicolas Sarkozy.

A sessão do Palácio de Luxemburgo acontece em um clima de alta pressão social, já que ontem confrontos entre manifestantes e policiais ocorreram pelo terceiro dia seguido em Nanterre e Lyon. Em resposta, o governo ordenou ao Ministério do Interior rigor contra os estudantes e o desbloqueio das refinarias do país.

Em Nanterre, a mobilização de 200 jovens voltou a acontecer nas imediações da escola Joliot Curie, bloqueada pelos estudantes. Ao longo de duas horas, os manifestantes depredaram vidros do Tribunal de Justiça, destruíram estações de ônibus e incendiaram um automóvel. Evitando o confronto direto, a polícia repetiu a estratégia de terça-feira e apenas cercou o grupo, esperando a desmobilização.

Ao fim do conflito, um jovem admitiu ao Estado participar dos tumultos, mas recusou o rótulo de "vândalo" usado pelo Ministério do Interior. "Não acredite no você vê na TV. Não somos animais. Só somos contra a reforma de Sarkozy", argumentou, falando sob a condição do anonimato. "Cada grupo reage como pode."

Em Lyon, as cenas de guerrilha urbana se repetiram pela manhã, mas com menor intensidade. Um caminhão foi incendiado no bairro central de Pesqu''île. A circulação de ônibus e metrô foi interrompida entre 9h e 16h, o que prejudicou o transporte e a atividade econômica da cidade. Em visita relâmpago, o ministro do Interior, Brice Hortefeux, foi vaiado pelos manifestantes e prometeu firmeza contra o vandalismo e a indenização dos prejudicados pela destruição. "Vim a Lyon para dizer que essa violência não seguirá impune", afirmou. "A França não pertence aos vândalos, aos saqueadores e aos apedrejadores."

Nas imediações de Paris, manifestantes bloquearam os acessos aos aeroportos Roissy-Charles de Gaulle e Orly. Houve um princípio de confusão com a polícia, mas ninguém ficou ferido.

É nesse cenário que deve acontecer a votação do projeto no Senado, que prevê, entre outras medidas, a elevação da idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos. Aprovado na Assembleia Nacional há 20 dias, a nova legislação também deve obter a chancela no Senado, já que o governo Sarkozy tem a maioria nas duas casas.

Ontem, durante as sessões de debate no Senado, os três maiores partidos de esquerda - socialistas, comunistas e verdes - fizeram uma inédita solicitação ao governo para que retire o projeto do Parlamento. "Suspenda as discussões no Senado e retome os debates. Milhões de franceses esperam essa postura", afirmou o senador Jean-Pierre Bel, em nome da oposição.

O ministro do Trabalho, Eric Woerth, descartou o recuo. Em pronunciamento oficial, Sarkozy apelou à "responsabilidade de cada um", reconheceu o direito dos manifestantes, mas garantiu que levará a reforma até o fim. "É normal que em uma democracia cada um possa expressar sua inquietude e oposição. Mas certos limites não devem ser ultrapassados e meu dever é garantir o respeito à ordem republicana."

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