''Saudade do cachorro, mulher e filhos''

Condenado a 21 anos de prisão por crimes financeiros, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, com os bens indisponíveis, as contas bloqueadas e despejado há um mês de sua mansão - avaliada em R$ 140 milhões -, Edemar Cid Ferreira diz sentir falta "do cachorro, da mulher e dos filhos". Ex-controlador do Banco Santos, liquidado pelo Banco Central (BC) em 2005, Edemar hoje mora de favor na casa do amigo Zizinho Papa (da família dos ex-donos do Banco Lavra), situada a poucos metros da casa onde viveu por 23 anos, no Morumbi.

Fausto Macedo e David Friedlander, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Apesar da suspeita de que teria dinheiro oculto no exterior, o ex-banqueiro afirma viver com recursos emprestados por amigos, circula numa Zafira - a Mercedes Benz 2002 fica na garagem - e está montando uma empresa na área de tecnologia da informação, com a ajuda de amigos, para ter uma remuneração regular. Por lei, ele não pode ser dono de empresa.

Em silêncio desde que tornou-se alvo da Polícia Federal e da Justiça, Edemar agora quer falar. É um obstinado em provar que o rombo em sua instituição "nunca existiu, foi uma farsa" - que atribui a erros cometidos pelo BC. Conta que passa a maior parte do tempo na casa de Papa, de três andares e que está para alugar, trabalhando na sua defesa. Ele recorreu ao Tribunal Regional Federal contra a condenação criminal. O criminalista Arnaldo Malheiros Filho o defende. "É um advogado extraordinário."

O sr. acha que um dia volta para sua casa?

Tenho direito de voltar. É um bem de família.

Se o sr. está com os bens bloqueados, como vive? Tem dinheiro no exterior?

Nem no exterior, nem aqui. Eu peço aos amigos. É humilhante, mas as pessoas a quem eu peço são meus amigos, sabem da verdade. São pessoas que têm um certo nível social, que têm posses e podem me emprestar. Não vai fazer falta a eles. Dificilmente recebo um não. Mas é uma situação constrangedora.

O sr. não tem renda nenhuma?

Não, mas estou montando um negócio na área de tecnologia, já estou trabalhando. Não posso ter empresa. Vou criar uma empresa de modo que eu possa ser empregado dela junto com outras pessoas.

Quem são esses amigos?

Prefiro não dizer. Não quero expor ninguém.

Na garagem desta casa há um Audi e um Mercedes Benz. Algum deles é do senhor?

O Mercedes. Mas é ano 2002. Está aqui porque vou mandar buscar minha mulher, que está no interior. É mais seguro. Eu ando de Zafira, de táxi.

Sente muita falta da vida antes da quebra?

Não tenho apego a bens materiais. Eu sinto falta mesmo é do meu cachorro, Clóvis, buldogue inglês. Sinto falta da minha mulher, dos meus filhos e de convivermos juntos. Márcia, minha mulher, está na casa de amigos. Ela não vem para cá, acha tudo um grande vexame. Meus filhos moram fora. Não temos mais nossa casa. Meu cachorro está na casa da sogra de um dos seguranças que tínhamos. Tudo por causa de uma quebra injustificada. Acho que fui um pouco boi de piranha.

Como?

Na época da intervenção havia o Mensalão e dois bancos que eram os agentes do Valério (Marcos Valério, suposto operador do Mensalão), o Rural e BMG, estavam na mira do BC, Acho que quiseram tirar a atenção do mercado, não tinha nenhuma razão palpável para a intervenção no meu banco.

Mas o Banco Santos não tinha um rombo?

Falaram em rombo de mais de R$ 2 bilhões. Foi a maneira de justificarem uma intervenção. O BC tinha colocado mais de 30 fiscais no banco, isso assustou os clientes, eles começaram a sacar dinheiro. Pedi empréstimo de R$ 700 milhões ao BC para atender os saques, que estavam se avolumando. Cumpri todo o ritual de certidões, mas no final não deram o dinheiro e houve a intervenção.

Seus argumentos não convenceram a Justiça?

Não havia rombo. A massa falida do banco já recebeu R$ 1,2 bilhão em dívidas. Deu descontos de mais de R$ 700 milhões para que grandes devedores pagassem seus débitos. Se a gente somar, chega a um número próximo aos R$ 2 bilhões, portanto já derrubei a tese de que o banco era furado. Ainda tenho mais R$ 3 bilhões de discussões judiciais, dos quais já ganhei quase tudo na primeira instância.

A Justiça o condenou por lavagem e gestão fraudulenta.

Se eu tinha o dinheiro dos dividendos, livre do imposto de renda, completamente legal, por que razão ia fazer com que o banco mandasse dinheiro para o exterior e voltasse para mim? Seria insanidade. Não tem mágica, não tem truque, não tem coisa nenhuma. A operação financeira não tem segredo, é perfeitamente legítima. Dizem que eu e um grupo de diretores mandamos dinheiro do Banco Santos para o exterior e depois trouxemos o dinheiro de volta por meio de uma empresa em nome de minha mulher. A verdade é que minha mulher tinha uma empresa lá fora, a gente lançou papéis lá fora e a empresa dela foi usada para capitalizar o banco.

O sr. era muito bem relacionado. A família Sarney tinha dinheiro no seu banco, o PT também. Se houve armação contra seu banco, como o sr. suspeita, porque suas conexões políticas não evitaram?

O PT tinha uma conta muito pequena. O PT veio propor que a gente fizesse um financiamento de computadores para todo o partido. Nós declinamos, depois acho que fizeram com o Banco do Brasil. Declinamos por falta de garantia. O banco só trabalhava com garantia. O PT tinha R$ 12 mil na conta. O José Sarney tinha dinheiro depositado na asset management. Eu nunca acreditei que pudessem quebrar o banco. Se tivesse um outro estilo, eu talvez usasse meus contatos para tentar evitar. O banco crescia muito, eu tinha os melhores executivos. Eu tinha muito sucesso, no banco e na área cultural. Posso ter atropelado outras pessoas sem saber que atropelei...

O sr. era o banqueiro da família Sarney?

Nunca fui. O que acontece é que as duas famílias são muito próximas. Eu e a Márcia somos padrinhos da Roseana e do Jorge Murad e eles são nossos padrinhos. Minha mulher e a Roseana são amigas. Praticamente foram criadas juntas. O pai da minha mulher, Alexandre Costa, era senador. Eram muito amigos e moravam perto. Essa relação continua até hoje.

Sarney não tentou ajudá-lo?

Ele também não sabia. Uma vez tive audiência com o Meirelles (Henrique, ex-presidente do BC). Falei "pô tem um bando de fiscal lá no banco, manda tirar esses caras". Ele falou "eu não posso, meu negócio é economia, isso aí é com o diretor de fiscalização".

Por que resolveu falar agora?

Antes não tinha como provar. A massa falida fez um acordão, as empresas que estavam renitentes em pagar suas dívidas poderiam ir ao banco e ter desconto de 75% se quitassem à vista. Podem ter até 75 meses para pagar. Protestamos. Essas empresas são de primeiro time, têm dinheiro. Podem pagar.

Não é assim em todos os processos de falência? O administrador judicial oferece desconto...

O único que reclama disso sou eu. Alguns credores também estão se posicionando contra. Eu sou credor. A empresa é minha. o banco é meu. Quando terminar a falência, tudo o que sobrar é meu. É lei e eu vou receber.

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